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quarta-feira, 8 de maio de 2013

... E Todos Viveram Felizes... Não, Péra...


    Era uma vez, num reino muito distante, uma Rainha entediada com o patético e repetitivo clichê “... e viveram felizes para sempre”, que um belo dia, depois de constatar que seu espelho mentia ao dizer que a enteada Branca de Neve era a mais bela de todas (convenhamos, Ginnifer Goodwin não chega aos pés de Lana Parrilla), decidiu lançar sobre o reino uma terrível maldição, que varreu todos os personagens para o pior lugar possível: o mundo real.
     Antes, porém, que a maldição fosse lançada, os mocinhos conseguiram colocar a filha recém-nascida de Branca de Neve e do Príncipe Encantado num guarda-roupa feito com a madeira de uma árvore mágica, capaz de mantê-la a salvo.
     Assim, todos os personagens dos contos de fadas foram morar em Storybrooke, uma cidade fictícia no Maine, New England, onde ficaram parados no tempo por 28 anos, sem nenhuma lembrança de quem eram ou de onde vieram – talvez a Rainha Má tenha usado a máquina de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças para apagar as memórias deles, mas isso é apenas especulação.
     Um belo dia, um menino de dez anos, dado para adoção ao nascer, decide bater na porta de sua mãe biológica com um enorme livro de contos de fadas na mão, para contar-lhe a estranha história de seu passado desconhecido.
     Posso ter exagerado um pouco os detalhes, mas é com este enredo que eu lhes apresento a série da ABC Once Upon A Time.
     À primeira vista, parece que a história é boba. Uma série que mistura os contos infantis, joga todos num liquidificador mágico, mistura até dar um nó nas ideias de todo mundo, para no fim de 22 episódios resolver tudo com um bibit bobit bum.
     Mas na verdade não tem nada a ver com isso.
     Vamos do início:
     A protagonista, ao contrário do que pensei quando vi os primeiros pôsteres com a Branca de Neve, é a filha dela, Emma Swan, uma pessoa real, que cresceu longe do reino mágico, sem qualquer contato com a “realidade” de seus pais, e que deve ter apanhado muito na vida até chegar à Storybrooke. Ela não é o estereótipo da princesa perfeita e boazinha que sua mãe representou no conto original. Prova disso, é que ela deu o próprio filho para adoção ao nascer, por um motivo que não fica claro a princípio, mas levá-lo de volta para a mãe adotiva – ironicamente, Regina Mills, a versão real da Rainha Má –, é um forte indício de que ela nunca pretendeu criar vínculos com aquela criança.
     Os personagens que foram banidos do reino Tão, Tão Distante também adquiriram personalidades mais reais.
     Cada episódio foca numa história diferente, e é protagonizado por um personagem, ou grupo de personagens. Então conhecemos, através dos flashbacks, uma nova versão de seu passado, menos inocente que o conhecido pelos contos, e que por vezes coloca em dúvida o caráter até mesmo dos personagens mais tradicionais.
     Outro fato curioso, é que a série procurou estabelecer vínculos mais tênues entre as histórias, para amarrar o enredo de uma forma mais convincente, como a unificação dos vilões. Regina é a personificação da Rainha Má de Branca de Neve, e de todas as rainhas que atormentaram a vida das princesas dos contos, embora as outras megeras tenham sido citadas em alguns momentos, sem chegar aos pés da vilania de Regina; enquanto que Rumplestiltskin – embora o nome seja difícil de ler de primeira, não é erro de digitação –, encarna todos os vilões masculinos, inclusive a Fera que manteve Bella presa em seu castelo para quebrar sua maldição; e ele é também o Crocodilo que ceifou a mão do Capitão Gancho na Terra do Nunca – pelo que consta, arrancou a mão para vingar sua dor de cotovelo!
     Rumplestiltskin, aliás, é o grande vilão da história, que manipula todos os outros malvados como marionetes, conduzindo-os a fazer o que ele quer e a colaborar para o seu único benefício.
     Mas se os mocinhos deixaram de ser imutavelmente bons, os vilões de Once Upon a Time também não são pura maldade. É um contraponto interessante: criar a partir de histórias onde não existe meio termo, é a eterna luta do bem supremo contra o mal irremediável, uma nova história onde todos os personagens podem ter esta dualidade, podendo ser bons e maus ao mesmo tempo, cometendo erros e injustiças, e tentando se redimir. Ou, em outras palavras, transformando personagens fantásticos em completamente humanos.
     Vamos conhecer alguns personagens da série:
     (Este é apenas um resumo da lista de personagens fixos, porque já passou por Once Upon a Time uma verdadeira pancada de gente do mundo mágico).


     Emma Swan – a filha de Branca de Neve e do Príncipe Encantado, que cresceu no mundo real, com a missão de quebrar a maldição de Regina e libertar os personagens do esquecimento e do tempo. Interpretada por Jennifer Morrison (a Dra. Cameron de House).


     Henry Mills – filho biológico de Emma, adotado por Regina, e responsável por trazer a esperança de volta a Storybrooke. Recentemente descobriu que é neto do Ser das Trevas Rumplestiltskin, mais uma unificação de núcleos que a série estabeleceu, ampliando a família central. Interpretado por Jared Gilmore.



 
     Branca de Neve/ Mary Margaret Blanchard – no mundo real, uma professora primária, que vive um romance proibido com o Príncipe Encantado David Nolan. Interpretada por Ginnifer Goodwin (ironia é mãe e filha terem praticamente o mesmo nome na vida real).


     Príncipe Encantado/ David Nolan – começa a série como um desconhecido que está em coma no hospital, resultado de uma luta de espadas no momento em que colocava Emma no guarda-roupa no mundo mágico, e depois se revela um polígamo que já passou o rodo em tudo quanto é princesa do mundo do faz-de-conta. Interpretado por Josh Dallas.

 

     Rainha Má (ou não tão má assim)/ Regina Mills – Prefeita da cidade de Storybrooke. Já andou tentando se redimir para reconquistar o carinho de Henry, mas uma vez Cruela, sempre Cruela. Se bem que aparentemente suas maldades são influenciadas por sua mãe, esta sim, má até o tutano do osso, Cora. Na ausência dela, Regina chega a ser quase uma boa pessoa. Interpretada por Lana Parrilla, e como veem Branca de Neve não é a mais bela.


 
     Rainha de Copas/ Cora – antes de o Bin Laden existir, antes de Hitler, e até mesmo da gripe suína, essa megera já tocava o terror no reino encantado. Originalmente filha de um moleiro, sedenta por poder e vingança, casou-se com um príncipe graças a um acordo feito com Rumplestiltskin, e depois de enganá-lo, ampliou sua magia e foi responsável por todas as desgraças que corromperam o coração de Regina, e a levaram ao trono. Interpretada por Barbara Hershey.


     Rumplestiltskin/ Mr. Gold – um dos personagens mais divertidos e bem representados da série. Apesar de antagônico, ele empresta um humor negro à história, e tem alguns momentos humanos quando demonstra seu amor e sofrimento por Bella. Brilhantemente interpretado por Robert Carlyle.


 
     Bella – a mocinha obcecada por livros que Rumplestiltskin manteve prisioneira em seu castelo, e que derreteu a geleira de seu coração. A única pessoa com quem ele realmente se importa, e provavelmente sua única fraqueza. Interpretada por Emilie de Ravin.


     Killian Jones” Capitão Gancho – apesar de sua obsessão por vingar-se de Rumplestiltskin, o Crocodilo que o mutilou no passado, o pirata maquiavélico de Peter Pan não chega a ser um grande vilão, e agrada com seu jeito debochado, e por que não dizer, com seu charme natural. Num passado distante, Gancho fugiu com a esposa de Rumplestiltskin, Milah (mesmo em seus melhores dias, ninguém pode culpá-la por ter escolhido o pirata ao Ser das Trevas), que depois foi assassinada pelo ex-marido. E mesmo não tendo sido banido de Tão, Tão Distante quando a maldição foi lançada, Killian foi para Storybrooke no início da segunda temporada disposto a matar Rumplestiltskin para vingar sua mão e sua amada perdidas. Interpretado por Colin O’Donoghue, o único ator irlandês que parece ter tido sorte nesta série.

CURIOSIDADES:
     *No mundo real, David Nolan foi casado com Kathryn, que em Tão, Tão Distante era a Princesa Abigail. Coincidência ou não, o Rei Davi (David, em inglês) teve uma esposa chamada Abigail.
     *O nome Regina significa Rainha, em Latim.
     *No conto original, Rumplestiltskin aparecia para a jovem filha de um moleiro (na série descobrimos que ela é Cora), e fiava a palha que o rei designara a ela e a convertia em ouro, conforme o pai dela havia prometido ao rei que ela poderia fazer. Isto deve ter inspirado o nome do personagem no mundo real, Mr. Gold (ouro, em inglês).
     *Vamos ressaltar outro detalhe: percebam a semelhança física entre os personagens com parentesco direto. Não dá para negar que a estética da série é impecável.


 
     Embora a mistura de personagens do mundo encantado não seja uma ideia original – o mesmo foi feito em Shrek 3° –, trazer os personagens para o mundo real confrontou um fato incontestável: o de que o mundo que se cria nas páginas geralmente é mais convidativo e amistoso que o mundo em que se vive, e que estes lugares fantásticos servem como fuga para idealizar um mundo mais agradável.
     Basicamente, a maldição de Regina roubou a inocência dos personagens, colocando-os na posição das pessoas que cresceram ouvindo essas histórias, ou seja, fazendo-os perceber que fora da fantasia, existe um mundo onde só se alcança um final feliz – na medida do possível – com muita dificuldade.
     A série, aparentemente, é uma alegoria sobre o crescimento; o choque entre a vida que se espera viver, e os obstáculos que a realidade impõe, sempre colocando os personagens diante de uma escolha difícil, que mostra que eles não estão mais naquele mundo inocente que conheceram, tornando-os mais maduros e humanos, confrontando seus valores e a necessidade constante de fazer sacrifícios.
     Não é apenas mais do mesmo, embora não seja também uma história que mudará vidas. Mas até este momento Once Upon a Time tem equilibrado o real e o imaginário de uma forma inteligente e bonita de se ver. É uma boa opção para quem quer se desligar um pouquinho da monotonia e estresse do “nosso mundo”, e sonhar com um faz-de-conta sem perder todas as bases de realidade.
     Não creio que vá render muitas temporadas; embora o acervo de contos de fadas e histórias fantásticas seja bastante farto, tudo tende a ficar enjoativo, mas por enquanto, vamos sonhar com o felizes para sempre.

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