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segunda-feira, 26 de maio de 2014

É Mágica? Ou Uma Coincidência Verdadeiramente Genial?



Vamos a mais uma sessão nostalgia no Admirável Mundo Inventado. Desta vez sobre duas séries de TV muito parecidas, que abordavam basicamente o mesmo tema, fizeram sucesso na mesma época, e que sempre foram exibidas juntas, como se uma completasse a outra – e talvez completem mesmo.


É verdade que as duas séries eram tão maravilhosas individualmente que mereciam ganhar cada uma a sua própria postagem. Todavia, falar de uma sem mencionar a outra é tarefa para Tom Cruise: uma Missão Impossível!


Principalmente porque essas duas séries nos remetem àquela questão primordial “quem veio primeiro? A galinha ou o ovo?” “A Feiticeira ou Jeannie é Um Gênio?”.





Veja bem:


*A Feiticeira estreou em 1964; Jeannie em 1965.


*Ambas as protagonistas era loiras e tinham o rosto parecido. E as duas atrizes tinham a mesma idade quando suas séries estrearam: 31 anos.


*Ambas as séries eram sobre belas mulheres com poderes mágicos, tentando se ajustar ao mundo dos mortais, ajudando ou bagunçando a vida de seus homens, ou mais frequentemente as duas coisas. E ambas as personagens praticavam magia utilizando tiques semelhantes – Samantha torcia o nariz e Jeannie piscava os olhos com força.


*Não bastasse isso tudo, as duas séries tinham vinhetas de abertura em desenho animado, e com trilha sonora apenas instrumental com ritmos semelhantes.





Aí fica aquela dúvida: uma era a sobra do roteiro da outra? Ou qualquer semelhança é mera coincidência?



Agora sim, uma de cada vez:





A FEITICEIRA
(BEWITCHED)




Samantha e James Stephens poderiam ser um típico casal americano, não fosse um pequeno detalhe: Samantha era uma feiticeira, que praticava magias aqui e ali para facilitar sua vida e – ironicamente – sua tentativa de ser uma esposa americana normal. Porque nós sabemos que todas elas têm o poder de fazer aparecer um bolo impecavelmente decorado com uma mera torcidinha de nariz.



James (interpretado a princípio por Dick York, que na versão original foi chamado Darrin) era um publicitário que vivia levando broncas do chefe, Larry Tate, por demorar demais a preparar as campanhas, mas preferia resolver as coisas no modo mortal, tentando a todo custo manter oculto o segredinho de sua esposa. Porém, Samantha (Elizabeth Montgomery) não conseguia vê-lo em apuros sem tentar ajudá-lo, e literalmente movia seu narizinho onde não era chamada, e suas bruxarias inocentes cercadas de boas intenções geralmente causavam mais encrencas que soluções.



Obviamente, Samantha tinha uma ajudinha, por assim dizer, para que suas pequenas travessuras se transformassem em grande confusão. Essa “mão amiga”, quase sempre vinha de sua mãe, Endora, uma sogra perfeitamente tradicional, ou seja, a bruxa má da história!



Endora (a maravilhosa Agnes Moorehead) era a presença mágica que dava o tom da série. Ela era a personificação da feiticeira do imaginário popular: uma mulher de traços finos e fortes, com um penteado elegante em suas madeixas vermelhas, e trajada com roupas de cores vivas (em geral, roxas) e espalhafatosas. Ela também era a grande vilã da história, embora não fosse realmente má. Sua implicância e desaprovação com o genro era motivada somente pelo fato de ele ser mortal, e portanto, privar sua filha Samantha de viver com seus iguais no plano dos feiticeiros. Como eu disse, uma sogra tradicional...




Grande parte do sucesso da série, claro, se deve aos divertidos personagens secundários, como a vizinha bisbilhoteira Gladys Kravitz, que estava sempre empoleirada na janela de sua casa espiando as coisas esquisitas que aconteciam na casa dos Stephens, e seu marido distraído Abner, que nunca conseguia presenciar tais absurdos, já que no segundo em que Gladys corria para chamá-lo à janela, Samantha mexia seu nariz e arrumava tudo.




Os divertidos Tio Arthur e Tia Clara também eram responsáveis por várias trapalhadas. Tia Clara, principalmente, porque nunca se lembrava dos feitiços que poderiam consertar suas trapalhadas.



Já o hilário Tio Arthur, tinha um humor sarcástico, e gostava de se divertir à custa de James.



E também a amalucada prima-gêmea de Samantha, Serena (Elizabeth Montgomery, com uma peruca preta, creditada como Pandora Spocks), que aparecia de vez em quando para sabotar a vida do casal.



A partir da segunda temporada em 1965 A Feiticeira começou a se reproduzir. A atriz Elizabeth Montgomery passou por duas gestações durante a série, por isso, Samantha e James tiveram dois filhos: a impagável Tabatha, primogênita do casal, que (especulação minha) décadas depois inspirou o Filho do Máskara, porque Tabatha, assim como a mãe era uma bruxinha sapeca, que sempre usava seus poderes, ainda descontrolados, nas horas mais impróprias.



A pequena feiticeira foi interpretada por três pares de gêmeas (na época havia uma lei que exigia que crianças usadas como atrizes fossem gêmeas, para que fosse feito um revezamento, a fim de evitar exaustão), sendo as mais notáveis Erin e Diane Murphy. Em 1969 Samantha deu à luz Adam, o filho mortal e destituído de magia.



Em outras palavras, A Feiticeira foi a primeira série de TV onde as mulheres estiveram “no poder”.






JEANNIE É UM GÊNIO
(I DREAM OF JEANNIE)





“Diferente, divertido, surpreendente. Um programa verdadeiramente genial! A garota desse programa é sonho, é um espetáculo, é muito viva. Jeannie é um Gênio!”
(A abertura da série poderia sintetizá-la perfeitamente. Exceto na parte do diferente...)





O Capitão Anthony Nelson (posteriormente Major Nelson), é encarregado de realizar testes num foguete, e cai numa ilha deserta no Pacífico Sul. Lá ele encontra uma misteriosa e atraente garrafa, onde vive a bela gênia de dois mil anos de idade Jeannie. O Capitão Nelson a liberta, mas Jeannie se apaixona por ele, e dá um jeito de esconder a garrafa entre suas coisas, e assim é levada por seu novo amo à Cocoa Beach, Flórida, onde ela vira a vida do astronauta do avesso.





Primeiro, Jeannie fica enciumada ao descobrir que Nelson tem uma namorada, Melissa (Karen Sharpe), filha do General Stone (Phillip Ober), um dos superiores de Nelson. A princípio ela tenta fazer tudo ao seu alcance para atrapalhar o relacionamento do casal, usando sua mágica de maneira inconsequente. Depois que o namoro é rompido, as mágicas de Jeannie passam a ser feitas, como as de Samantha, com a boa intenção de facilitar a vida de seu astronauta, mas em geral, só atraíam confusão.




O Coronel Bellows (Hayden Rorke), psiquiatra da base de operações da NASA é a Gladys Kravitz de Jeannie é Um Gênio, a personagem que está sempre bisbilhotando os acontecimentos estranhos na vida do Major Nelson, sem jamais conseguir confrontá-lo realmente. Nelson sempre tenta justificar as trapalhadas mágicas em que a gênia o envolve com absurdas explicações racionais que o psiquiatra não consegue desmentir, e na maioria das vezes, Bellows acaba acreditando que o maluco é ele próprio, e não o astronauta.



O melhor amigo do Major Nelson era o Major Roger Healey (Bill Daily), o único que conhecia o segredo da gênia, descoberto por acaso quando ele tentava namorar Jeannie, e sempre tentava ajudar o amigo a explicar e se livrar das enrascadas arrumadas por ela, em geral, encrencando-o mais do que ajudando. Healey não era um homem muito inteligente.



Em comum com Samantha, Jeannie tinha ainda uma gêmea de peruca preta, também interpretada por Barbara Eden. Não me recordo se um nome chegou a ser dado à personagem, ou se ela era simplesmente Jeannie 2, mas esta era a tradicional gêmea má, cujo objetivo era passar à frente da irmã loira e boazinha ao conquistar Nelson.




Na época em que estava sendo produzida, Jeannie é Um Gênio foi duramente criticada como sendo uma cópia de A Feiticeira (um fato praticamente inegável), embora tenha alcançado sucesso quase semelhante; não fosse o casamento dos personagens protagonistas, Jeannie e Nelson, ter assassinado o programa, pois realizado o desejo da gênia, não havia mais motivo para a série continuar. Parece que ninguém pensou na possibilidade de inserir uma criança gênia atrapalhada para competir com Tabatha. Ou talvez já estivesse mesmo na hora de parar de consultar o roteiro da outra série.




Aqui no Brasil Jeannie chegou a fazer mais sucesso que A Feiticeira (o oposto aconteceu nos Estados Unidos), e ambas as séries são frequentemente reprisadas em diferentes emissoras de TV, tendo passado por praticamente todas as emissoras abertas (tanto as atuais quanto as extintas), e por vários canais de TV a cabo.


Eu, particularmente, discordo da opinião comum de que Jeannie era somente uma cópia produzida para competir com a Feiticeira. É claro que uma originou a outra, e que tinham muitas coisas em comum, mas se é para fazer um paralelo, A Feiticeira era uma série maravilhosa, e tinha mais personagens interessantes que Jeannie (principalmente aqueles provenientes do mundo mágico). Porém, Jeannie tinha uma “magia” mais especial, por assim dizer, vinda diretamente dos contos árabes das Mil e Uma Noites, um tema que até então não tinha sido devidamente explorado na televisão, e principalmente, nunca tinha sido explorado dentro de um contexto contemporâneo.


Todas as histórias conhecidas, mesmo os filmes que já haviam sido feitos com gênios da lâmpada ou da garrafa foram ambientados no mundo antigo, quando, por consenso geral, as pessoas estavam, digamos, “acostumadas” a lidar com seres mágicos. Trazer uma gênia do mundo antigo para o século XX implicava em expor sua magia dentro do convívio com um humano comum, e ao mesmo tempo escondê-la dos demais.


Claro que Samantha e James também faziam isso, mas a feiticeira era esposa de seu humano, havia um pano de fundo que justificava sua presença na vida dele. O mesmo não ocorria com Jeannie; ela era, em todo caso, uma intrusa que morava na casa dele, que não era sua namorada, e cuja presença era sempre difícil de explicar. Sem falar que a série foi produzida em plena época da liberação feminina, quando expor uma mulher na televisão chamando um homem de “amo” poderia causar algum desconforto, e dificultar a empatia do público feminino (a do público masculino pode ter sido mais facilmente conquistada pelo figurino de harém da protagonista). Além disso, embora os anos 60 tenham ficado conhecidos com a época embrionária da liberdade sexual, este tema ainda era abordado com muito cuidado na televisão, e havia grande censura a este respeito, motivo pelo qual a relação de Jeannie com Nelson era meramente platônica, embora eles obviamente se sentissem atraídos um pelo outro. E este relacionamento platônico foi justamente o fato que fez a série ser um sucesso, e o que sustentou as cinco temporadas do programa. Todo mundo torcia para que Jeannie realizasse seu desejo de conquistar o amor do astronauta, ao passo que a mesma conquista inevitavelmente marcou o cancelamento da série.




Ah é, tem mais um detalhezinho que sem dúvida corroborou para o sucesso de Jeannie é Um Gênio: a série foi criada pelo escritor Sidney Sheldon.




Como eu disse, um detalhezinho...

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