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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Quando Os Mortos Retornam Para Puxar o Pé... Ou o Gatilho Sobre Seus Assassinos...



Com uma trama macabra – dentro e fora das telas –, O Corvo, filme dirigido por Alex Proyas se tornou um clássico e uma referência do gênero de horror desde sua estreia.


A história do filme foi baseada nos quadrinhos homônimos de James O’Barr. Em 1978, a noiva do cartunista, Beverly, foi morta por um motorista bêbado, e a partir daí, O’Barr criou sua série em quadrinhos, usando a vingança do protagonista como um meio de lidar com sua tragédia pessoal.


Mal sabia O’Barr que a adaptação de sua obra para o cinema também resultaria em outra tragédia.


O filme ficou marcado nas páginas negras da história do cinema pelo acidente ocorrido durante as filmagens, e que resultou na morte precoce de seu protagonista, o ator Brandon Lee, filho do maior mito das artes marciais no cinema, Bruce Lee. Em várias cenas ao longo do filme, o personagem de Brandon era baleado, mas numa delas, uma bala esquecida no cano da pistola encerraria cedo demais a vida de seu promissor intérprete. Algum tempo após o lançamento do filme, surgiram rumores de que a tétrica cena em que o ator foi baleado foi incluída na edição final, embora essa informação jamais tenha sido confirmada por ninguém envolvido na produção, e realmente seja pouco provável. O ator Michael Massee, intérprete de Funboy, contou numa entrevista, anos depois, que foi ele que, sem saber, disparou o tiro que matou Brandon, numa cena em que seus personagens se confrontam – coincidência ou não, na cena em que o personagem de Brandon foi assassinado.


Como a morte do ator aconteceu pouco antes da conclusão das filmagens, eles gravaram as cenas que faltavam com um dublê, e refizeram a cena do assassinato do personagem, excluindo o trágico disparo da cena, e aproveitando o aspecto obscuro da produção, mantiveram seu rosto escondido nas sombras.


Mas para além da tragédia, o filme também ficou marcado pela impecável interpretação de Brandon Lee do personagem Eric Draven, o líder de uma banda de rock que não conseguiu descansar em paz, e precisou retornar dos mortos, carregado pela fúria, pela dor da injustiça, e pelo eterno amor de Shelly, cujo sofrimento e morte ele desesperadamente precisava vingar.


Aliás, o sobrenome do personagem, Draven, é uma referência ao poema de Edgar Allan Poe, The Raven (O Corvo), que claramente foi uma das inspirações para a história.


E embora o enredo do filme não seja exatamente original, nem tenha essa pretensão, ele cativa tanto pelo universo gótico, quanto pela força e o desejo de justiça do protagonista, que em alguns momentos beira a insanidade. Mas principalmente, o filme cativa por Brandon Lee. Sua atuação é simplesmente irrepreensível. Ele empresta toda a fúria, a melancolia, a força e a sensibilidade necessárias ao personagem, sem exageros nem omissões. Até a postura escolhida por Brandon para dar vida ao personagem depois de retornar do túmulo faz lembrar um pássaro: na maneira de andar, de sentar, de se mover e de se comportar. E o olhar... Ah, o olhar de Eric Draven, é simplesmente impossível descrever. Ele tem a fúria e tem a dor, a vítima e o assassino, o anjo e o demônio, o amor e o ódio. Todas as palavras do mundo podem ser ditas naquele olhar. Uma atuação primorosa, que infelizmente, uniu Eric Draven, na arte e na morte, para sempre a Brandon Lee.


A história começa na Devils Night, a noite anterior ao Halloween, em 30 de Outubro. Logo na abertura, ouvimos a narração da personagem mais jovem no filme, uma menina chamada Sarah, contando a lenda que foi usada que como ponto de partida na trama:


“As pessoas acreditavam que quando alguém morria, um corvo carregava sua alma para a terra dos mortos. Mas quando essa morte envolvia muita dor e injustiça, a alma podia ficar presa no mundo dos vivos, e, em alguns casos, o corvo podia trazer essa alma de volta para acertar as coisas”.


Então somos carregados para a cena de um crime: o loft onde o protagonista, Eric Draven, personagem de Brandon Lee, e sua noiva, Shelly Webster, foram brutalmente assassinados por uma gangue de bandidos, na véspera de seu casamento. Mas é como disse o policial Albrecht: ninguém se casa no Dia das Bruxas.


O casal assassinado costumava tomar conta de Sarah, uma menina praticamente abandonada pela mãe, uma dançarina de boate viciada em drogas. Um ano depois da tragédia, quando Sarah vai colocar flores no túmulo de Eric e Shelly, ela vê o corvo se empoleirar sobre a lápide do rapaz, e começar a bicá-la.


Naquela noite, Eric Draven levanta da tumba, atormentado pela dor e pela injustiça de sua morte e de sua noiva, e retorna ao loft onde tudo aconteceu, para reviver aqueles últimos momentos de horror. E inspirado pela máscara que costumava usar para assustar Shelly, ele pinta o rosto como um palhaço sinistro, se veste de negro, e com o corvo empoleirado em seu ombro, se lança na noite para se vingar de seus assassinos.


Eric vê pelos olhos do corvo, que alça voo à sua frente pela cidade, onde estão cada um dos bandidos que invadiram seu apartamento naquela noite, há um ano, e vai ao seu encontro.


O primeiro a enfrentar sua ira é Tin-Tin, o homem que lhe atirou uma faca assim que entrou no apartamento e viu sua noiva sendo espancada. Draven força o bandido a se lembrar do crime, antes de iniciar uma luta de habilidades marciais sobrenaturais (herança de Bruce Lee, pai do ator), e de transformá-lo em boneco vodu com as facas do próprio assassino. Quando a polícia chega, um pouco mais tarde, encontra o corpo do bandido coberto de facas, e o cartão de visitas do justiceiro desenhado com sangue ao seu lado, na parede do beco: a figura grande e majestosa de um corvo com as asas abertas.


Ainda naquela noite, Eric Draven invade a loja do Sr. Gideon, onde Tin-Tin costumava penhorar o espólio de seus assaltos, para recuperar o anel de noivado que ele havia dado à Shelly. Ao estourar o vidro para entrar na loja, depois de bater algumas vezes, Eric recita as palavras iniciais do poema de Edgar Allan Poe, O Corvo, numa clara referência a uma das inspirações para o personagem e o filme: “De repente, eu ouvi um ruído, como se alguém arranhasse, arranhasse a minha porta devagar...”.


Gideon, que é um homem acostumado a lidar com bandidos, pensa que Eric é algum vândalo, e não hesita em recebê-lo com um tiro, mas quando este cicatriza na sua frente, ele percebe que Eric não é um homem comum. E é quando temos pela primeira vez a exibição do sorriso sádico e do olhar doentio que imortalizaram o personagem, pouco antes de ele se atirar sobre o dono da loja e acuá-lo para que lhe diga onde está o anel. E ao recuperá-lo, ele manda Gideon dar um recado à gangue de Tin-Tin, avisando-lhes que a morte está chegando para eles, esta noite, e que Eric Draven manda lembranças. Então o Sr. Gideon só tem tempo de saltar no beco antes que o vingador dê o tiro na loja encharcada de gasolina para mandá-la pelos ares, levando da loja o anel, uma arma e uma guitarra.


Na saída, ele é abordado pela primeira vez pelo Sargento Albrecht, e dá a entender que ele é Eric Draven, o roqueiro que o policial encontrou assassinado há um ano, que voltou dos mortos para se vingar de seus assassinos. Mas quando o policial se vira por um instante, ele desaparece.


A segunda pessoa a ter um reencontro sobrenatural com o fantasma é Sarah, no momento em que Eric a salva de ser atropelada por um carro. Mas ao tocá-la, ele é atormentado por novas lembranças recuperadas de quando ele e Shelly cuidavam da menina. Sarah não percebe a princípio quem ele é, pois ele não a deixa ver seu rosto maquiado, mas quando ela atravessa a rua para buscar o skate, reclamando da chuva, ele diz a ela a frase mais icônica de seu personagem: “não pode chover o tempo todo”.



Então Sarah reconhece as palavras do refrão da música de Eric, e percebe que era ele, mas quando ela se vira, ele já desapareceu como um fantasma.


Quando Sarah chega em casa naquela noite, ela coloca o disco do Hangman’s Joke, a banda de rock que Eric liderava, para tocar na vitrola, e fica ouvindo o refrão que ele recitou para ela na rua, até perceber o corvo empoleirado em sua janela.


Aliás, a chuva, dentro do universo gótico do filme, simboliza o choro e o luto, e este é o motivo porque está chovendo quando Eric levanta do túmulo, e em todos os momentos melancólicos do filme.


Ainda naquela noite, Eric também acerta as contas com Funboy, quando ele está num quarto de hotel, se drogando com Darla, a mãe de Sarah. Eric os vê através dos olhos do corvo, e invade o quarto, destilando seu olhar insano sobre o bandido, antes de pendurar a guitarra num mancebo, puxar uma cadeira, cobrir o cano da arma com a mão, e desafiá-lo a atirar. Em seguida ele olha para o bandido através de sua mão perfurada pela bala, antes de a ferida cicatrizar, para desespero do bandido, que começa a distribuir tiros, em vão, até, com um tapa de Eric em sua arma, balear a própria perna. Então Eric o arrasta até o banheiro, onde Darla está escondida, e coloca o vilão na banheira para acordá-lo, porque o malvado desmaiou de dor.


E neste momento, Eric faz sua contribuição para melhorar a vida de Sarah, e uma contribuição ainda maior para o hall das frases mais memoráveis, e mais inspiradas... do mundo! Ao arrancar da mão de Darla a navalha com que ela pretendia se defender dele, ele faz com que ela preste atenção numa bronca, enquanto aperta o braço dela para fazer a droga retroceder e sair de seu organismo. E enquanto faz isso, ele pronuncia essas palavras maravilhosas: “Mãe é o nome de Deus nos lábios e nos corações das crianças”. E em seguida lembra a ela que sua filha [Sarah] está nas ruas, esperando por ela. Aparentemente, o conselho dele calou fundo – ou assustou muito! –, porque ela imediatamente vai embora, terminando de se vestir no caminho.



Então, Eric tira Funboy da banheira, e conclui sua vingança, injetando três agulhas de heroína em seu peito, dentro de seu cartão de visitas desenhado com sangue na pele do vilão: o corvo! E o deixa para morrer por conta própria com a overdose.


Na sequência, ele faz uma visita ao Sargento Albrecht, para descobrir o resto da história sobre a noite do crime. O caso acabou não sendo devidamente investigado, porque as pessoas, mesmo aquelas que apoiavam Shelly, quando ela estava engajada na luta contra uma ação de despejo no bairro – e que aparentemente foi o que irritou a gangue –, e assinaram a petição, tiveram medo de falar depois do que houve com eles. Eric, na época, achava que essas coisas eram triviais, mas pelo visto, nada é trivial. E ao tocar no policial, Eric consegue ver as lembranças dele do sofrimento de sua noiva nas trinta horas em que permaneceu na UTI do hospital antes de morrer, o que o deixa ainda mais atormentado.


O próximo a ser visitado pelo fantasma justiceiro naquela noite é T-Bird. Enquanto seu parceiro compra cigarros e cerveja numa loja aberta até tarde, o corvo pousa no para-brisa do carro, e Eric, no banco de trás, aponta uma arma e o manda dirigir cada vez mais rápido, até que a polícia liga as sirenes e começa a persegui-los. Graças ao comparsa, Skank, que roubou um carro para ir atrás deles, a polícia os perde de vista.


Eles estacionam numa ponte deserta, e então Eric o amarra ao banco do motorista, enquanto o faz recordar a noite do assassinato. E depois de prender o pé dele no acelerador, Eric puxa o pino de uma granada, joga entre as pernas do bandido, e deixa o carro correr ao redor das docas, com o porta-malas cheio de explosivos, até chegar ao rio, onde tudo vai pelos ares. Enquanto isso, Eric desenha com gasolina o cartão de visitas e acende o isqueiro para fazer o enorme corvo flamejante brilhar.


Quando Sarah desperta naquela manhã, vê Darla na cozinha, tentando se redimir por ser uma mãe relapsa. Ela conta sobre o conselho que recebeu, sem revelar quem o deu a ela. Então a menina vai ao loft procurar Eric, e encontra pedaços das fotos dele e de Shelly queimadas na lareira. Ele tentou se livrar das lembranças dolorosas antes de concluir a missão que o trouxe de volta. A princípio, Eric não está disposto a se deixar ser visto, mas então ele aparece, e eles têm um encontro comovente.


Mais tarde, ele toca guitarra freneticamente no terraço do prédio, ao pôr-do-sol, e, dando vazão a toda a fúria que a conclusão iminente de sua missão permite, quebra a guitarra roubada e a atira longe, antes de ir ao covil de Top Dollar para pegar o último nome em sua lista: o escorregadio Skank.


O corvo vai na frente, como sempre, como um arauto, anunciando a chegada do anjo da morte, e então, Eric faz sua entrada triunfal no covil do bandido mais perigoso da cidade. E como os vilões se recusam a entregar o homem que ele procura, ele se deixa ser alvejado até esgotar a munição do bando, e então se levanta distribuindo tiros para todos os lados, matando a maior parte dos bandidos.


Skank, que tinha se escondido debaixo da mesa, é forçado a sair quando Eric enterra uma espada de Top Dollar, que ele havia fincado na beira da mesa, e quase lhe arranca o nariz. Para tentar se livrar do vingador, o bandido tenta convencê-lo de que há um engano, e que Skank está morto. Eric concorda com isso, um segundo antes de atirá-lo pela janela.



Então é a vez da polícia tentar abater o justiceiro a tiros. Ele foge zombando da tentativa inútil dos policiais, atravessa uma janela de vidro, e escapa pelos telhados.


Agora é Top Dollar quem está irritado com Draven, depois de ele ter destruído sua sala de reuniões e matado seus homens, e quer pôr um fim em seu retorno dos mortos. Então sua irmã/amante sensitiva chinesa, Myca, lhe diz que o corvo é a ligação entre a terra dos vivos e o reino dos mortos, portanto, para matar Eric, antes precisam matar o corvo.


Eric está exausto, mas aliviado, porque o que tinha ficado pendente com sua morte, foi resolvido: seus assassinos e de Shelly estão todos mortos. Há uma cena particularmente tocante nesta sequência, quando ele sorri para as crianças que passam correndo, fantasiadas para o Dia das Bruxas. Há outra simbologia nesta cena: a alegria do dever cumprido, de finalmente poder descansar em paz, e a esperança de que a cidade volte a ser um lugar seguro para seus moradores, agora que a gangue de Funboy foi destruída... Exceto, porque ainda há uma ameaça à solta: Top Dollar e seus comparsas, Myca e Grange. Eles já planejam o contra-ataque ao anjo negro representado por Eric, agora que a chinesa desvendou o mistério do corvo.


Eric vai até o cemitério para reunir-se novamente com Shelly, e encontra Sarah dormindo sobre o túmulo dela. Ele acorda a menina para se despedir, e dá a ela o anel de noivado que fora de Shelly, pendurado numa corrente. Mas ao sair do cemitério, Sarah é raptada por Grange, e levada para dentro da igreja, de onde ela grita por Eric. Ele a vê através dos olhos do corvo, e vai correndo atender ao seu chamado.


O corvo entra à sua frente na igreja, e só ao ver o brilho vermelho do laser do fuzil de Grange, é que Eric percebe a armadilha, mas não consegue impedir que o corvo tenha a asa atingida pelo tiro. Então Top Dollar aparece, e pensando que o corvo estivesse morto, atira no ombro de Eric, que finge ter sido gravemente ferido. O ferimento do pássaro, no entanto, realmente anulou a imortalidade de Eric, e impediu que sua própria ferida cicatrizasse como antes, de modo que deste momento em diante, ele precisa tomar cuidado.


Ele fica no chão, esperando pelo momento de revidar, até que a polícia invade a igreja atirando, e ele aproveita que os bandidos estão distraídos com o tiroteio para sumir de vista, mas Myca consegue apanhar o corvo durante a confusão. E sob o olhar furioso de Eric, o pássaro ataca os olhos da bandida a bicadas, e ela despenca para a morte da torre do sino.


Então Eric sobe até o telhado, para onde Top Dollar levou Sarah, para terem o seu último confronto. A menina passa a maior parte da luta pendurada no telhado, enquanto o vilão admite, depois de atravessar o corpo de Eric com uma espada, que foi ele quem ordenou a morte dele e de Shelly. Então, Eric reúne toda a sua fúria, e mesmo mortalmente ferido, ergue as mãos para agarrar o rosto de Top Dollar, e transfere para ele as trinta horas de dor que sua noiva teve que suportar antes de morrer, e o deixa cair morto do telhado, e ser atravessado pelas lanças acima de uma das gárgulas da igreja.


Eric resgata Sarah, e pede que ela fique com o Sargento Albrecht, que foi ferido durante o tiroteio, até a ajuda chegar. Então ele retorna ao cemitério para reencontrar Shelly, e poderem enfim, juntos, descansarem em paz.


“Se as pessoas que amamos são tiradas de nós, o jeito de mantê-las vivas, é continuar amando-as. Os prédios queimam, as pessoas morrem, mas o amor verdadeiro é eterno”.

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