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terça-feira, 25 de novembro de 2014

Adorável Sedutor



Ambientado na deslumbrante Veneza do século XVIII, o romance de Casanova é uma das histórias mais encantadoras da ficção, embora o personagem tenha sido inspirado numa pessoa real.

O filme de 2005 é uma deliciosa comédia romântica feita ao estilo de Shakespeare Apaixonado. O filme toma a liberdade de contar como seria a história de Casanova, caso algum dia ele se apaixonasse verdadeiramente por alguém, e que tipo de mulher seria capaz de roubar o coração do maior sedutor de todos os tempos.





Giácomo Casanova ainda era um garotinho quando sua mãe partiu com uma companhia de teatro, e o deixou para ser criado por sua avó, prometendo voltar um dia à Veneza para buscá-lo.



De acordo com a avó, foi da mãe que Giácomo herdou sua compulsão irresistível por amor, embora ele provavelmente tenha escolhido suprir essa compulsão de um modo diferente do escolhido por sua mãe.

Casanova cresceu, e se tornou um belo homem. Mas sua fama cresceu proporcionalmente. Conhecido como devasso, colecionador de mulheres, promíscuo sedutor, Casanova se tornou o maior amante de Veneza, figura ao mesmo tempo transgressora e fascinante do imaginário popular.


Perseguido pela Inquisição por ser um sedutor, Casanova chegou a ser preso algumas vezes, numa delas, fugindo de um convento, depois de ter passado a noite com uma das noviças – olha a ironia dos acusadores: precisamente a amante prometida a um cardeal. Isso é para se ter uma noção de como andava a moral daqueles que defendiam a moral em Veneza, à época de Casanova.


Claro que a história foi contada de uma maneira debochada, justamente para ser uma caricatura divertida da história de Casanova, tentando demonstrar que talvez o famigerado sedutor não fosse o maior desatino moral naquela Veneza fantasiosa onde se passa o filme, mas talvez meramente um bode expiatório para a hipócrita sociedade da época. Embora, comprovadamente, o Carnaval de Veneza tenha ficado conhecido pelos casos de adultério e libertinagem.

Numa dessas prisões, precisamente quando foi acusado de passar a noite com a prometida do cardeal, cuja virgindade os clérigos locais deveriam assegurar, ele foi liberado justamente porque ninguém queria se responsabilizar por essa “falha na segurança”, mas o inquisidor lhe deu um ultimato: Casanova deveria se casar com uma mulher de boa reputação para camuflar sua má fama, e assim, frear o falatório local acerca de sua vida desregrada. E até lá, ele deveria se manter longe de escândalos, duelos e bebedeiras. A outra alternativa era ser expulso de Veneza, mas Casanova permanecia crente na promessa de que um dia sua mãe retornaria à cidade por ele.


Então Casanova vai às ruas tentar selecionar uma candidata, de preferência alguma que já não tenha cedido ao seu charme. E ao ver a imagem de uma santa sendo carregada pelas ruas, ele tem a visão da donzela perfeita para frear a língua dos venezianos: a suposta moça mais recatada da cidade, Victoria Donato.


Casanova vai até sua casa, conta ao pai dela que pretende mudar de vida, e para isso, quer a mão de Victoria em casamento. O pai dela, a princípio, fica obviamente desconfiado, mas a moça dá um jeito de chamar a atenção do pai no meio da conversa para lhe pedir que conceda sua mão ao famigerado devasso.

Não sei vocês, mas eu no lugar desse pai, com esse pedido tão descarado, abriria o olho com a suposta santinha que tem em casa...

A união é, no mínimo, irônica: Casanova, o grande devasso, noivo de Victoria, supostamente a única mulher “pura” em Veneza.


Mas logo depois de pedir a mão de Victoria, Casanova conhece Francesca Bruni. O irmão dela, Giovanni é apaixonado por Victoria, mas nunca teve coragem de declarar seu amor, e ao saber que ela está prometida a Casanova, decide desafiá-lo para um duelo. E como parte do acordo que fez com os inquisidores consistia em manter-se longe de encrencas até seu casamento, Casanova dá o nome de seu criado, Lupo Salvatore, em lugar do seu.


Porém, na hora do duelo, o criado de Casanova percebe que o desafiante Giovanni Bruni está assistindo à luta, aproveitando o direito de confrontantes e testemunhas de usarem uma máscara, e quem está duelando em seu lugar é sua irmã, Francesca, uma bela moça, de personalidade forte e revolucionária, que imediatamente conquista o coração do libertino.


Mas há outro problema, além de ela não saber quem ele é na realidade, e de ele já estar noivo de outra mulher: Francesca também está noiva, embora ainda não conheça o homem a quem foi prometida.

O que acabou sendo providencial para que Casanova pudesse se aproximar mais dela.

Ele próprio decide recepcionar Pietro Papprizzio, o noivo de Francesca, quando ele vem de Gênova para conhecer sua prometida. E usando o pretexto de que o hotel onde ele tinha reservas fechou, Casanova o hospeda em sua casa, mas também para ele mente seu nome, dizendo que é Bernardo Guardi, um polêmico escritor, que também vem sendo perseguido pela Inquisição, por causa de seus textos que protestam contra a maneira como a mulher é vista e tratada pela sociedade da época, e que está sendo procurado pela igreja, sob acusação de heresia. Àquela altura, Casanova já sabia onde morava Bernardo Guardi, e sabia também que Francesca o visitava com frequência, mas por causa de uma fofoca mal contada pelo irmão dela, ele acredita que Francesca e Guardi tenham um romance secreto.

Papprizzio cai como um tolo nas mentiras de Casanova. Como é um homem inseguro com a aparência, o rico comerciante de banha de Gênova teme que sua prometida não goste dele, e pede que “Bernardo Guardi” o transforme num homem fisicamente apresentável, o que proporciona a Casanova o tempo e o oportunismo necessários para conquistar Francesca.


Com o pretexto de levar um recado de Papprizzio à Francesca, Casanova vai à casa dos Bruni, e admite que mentiu sobre sua identidade ao conhecê-la, e que ele é, na verdade, Pietro Papprizzio, seu prometido, e como ele está de posse de um livro – ironicamente, de Bernardo Guardi – que ela mandou com uma dedicatória ao noivo, e que ele surrupiou entre seus pertences, ela se convence.


Nesse mesmo encontro, Casanova é apresentado ao impiedoso Bispo Pucci, que foi à casa de Francesca levar as condolências do Papa pela morte do pai dela, um embaixador muito estimado pela Santa Sé, e aproveita para anunciar que está à procura de Casanova e de Bernardo Guardi, e que pretende levá-los ao cadafalso em breve. Francesca sai de fininho no meio da conversa e corre para tentar avisar Bernardo Guardi, cujo nome ela usa como pseudônimo para publicar seus textos, para que ele fuja, mas chega atrasada e o vê sendo preso.


Enquanto seu criado Salvatore aplica o “tratamento de beleza” em Papprizzio, Casanova aproveita para levar Francesca e a mãe dela ao baile de carnaval, e acaba tendo que se desdobrar para comparecer ao baile com ela, como Pietro Papprizzio, usando uma máscara branca, e também com sua noiva Victoria – que saiu escondida de casa para ir ao baile... Tsk, tsk, santinha do pau oco! – como Casanova, com uma máscara preta.


Uma das cenas mais engraçadas acontece quando o pai de Victoria se senta à mesa com Casanova, Francesca e Andrea Bruni. Ele está ali procurando Victoria, e acaba envolvido num diálogo curioso em que recebe e dá os parabéns às Bruni pelo noivado de sua filha e de Francesca – inadvertidamente, com o mesmo homem.


Enquanto isso, Casanova se permite falar mal de si mesmo, sem que elas saibam que fala dele, achando que estão falando do noivo de Victoria, enquanto ele luta para manter a compostura e a mesa quieta, porque ninguém pode saber que Victoria está precisamente escondida lá embaixo – *ARRAM* – adiantando o expediente. E quando resolvem verificar o que está chacoalhando a mesa, a culpa acaba sobrando para o coitado de um porquinho que sai lá de baixo, enquanto Victoria se manda pelo outro lado para não ser vista por seu pai.


Espera um minuto! Como foi que quatro pessoas sentadas à roda de uma mesa pequena não perceberam que tinha uma pessoa e um porco lá embaixo? Quer dizer, debaixo daquela mesa, há o espaço da barraca de acampamento do Harry Potter!

Mas, enfim...

Casanova acaba ajudando o pai de Victoria a encontrá-la e levá-la para casa, porque ele agora é um homem conservador.


E o que mais me espanta nessa conversa, é que o Sr. Donato sequer perguntou o que aquele devasso declarado que pretende desposar sua filha estava fazendo naquele baile, para começar...


Nessa mesma noite, o Bispo Pucci invade a residência de Casanova, esperando encontrar escondido lá o herege Bernardo Guardi, já que o interrogatório demonstrou que o dono do nome não pode ser o autor dos textos polêmicos, já que não sabe ler nem escrever. Mas em vez disso, ele acaba encontrando lá Pietro Papprizzio seminu, amarrado numa mesa, coberto de gororoba, num suposto tratamento de beleza, que o Bispo possivelmente pensou que era outra coisa...


Pensando a princípio que Papprizzio é Casanova, mas claramente incrédulo sobre aquele biótipo ser a fantasia de toda mulher, Pucci fica inconformado por descobrir que fora enganado pelo libertino, que estava o tempo todo bem debaixo de seu nariz.


Então ele retorna ao baile de Carnaval, doido para colocar a corda no pescoço de Casanova pessoalmente, e o vê decolando com Francesca em um balão.


Papprizzio, que também acabou comparecendo ao baile depois que toda a confusão foi esclarecida, encantou-se imediatamente por sua futura sogra, Andrea Bruni, que já havia confessado algumas cenas atrás ao próprio Casanova, quando pensou que ele era seu futuro genro, que era fã de gordinhos. E ao ver a filha indo embora em um balão com o libertino, diante de toda a cidade - o que, no mínimo, a deixaria mal falada -, Andrea tem a reação mais natural para uma mãe do século XVIII: ela dá as condolências ao pretendente abandonado por sua filha, e imediatamente se oferece para ocupar seu lugar no compromisso.


A bordo do balão, Casanova diz à Francesca que sabe que ela é Bernardo Guardi, e admite tê-la visto discursando na universidade, o reduto da vaidade masculina – naquela época em que ele foi perseguido pelos guardas, enquanto fugia do convento com as calças na mão! –, e que a achou tão corajosa em seu discurso quanto seria no duelo.


Tudo se encaminha para o final feliz: a mocinha Francesca está claramente apaixonada por Casanova, e o devasso finalmente parece ter encontrado uma mulher que o fará sossegar o facho. É, tudo seria perfeito... Não fosse por um detalhezinho: ela ainda pensa que ele é seu noivo Papprizzio!

E ao descobrir que o homem por quem está apaixonada é Giácomo Casanova, Francesca fica furiosa, pois ele, com sua vida de promiscuidade e desrespeito às mulheres, representa tudo contra o qual ela protesta. Mas assim que o balão retorna à terra firme, ele é enquadrado pela guarda inquisitorial, e preso por depravação e heresia, e acusado de ser Bernardo Guardi. Francesca tenta argumentar contra esta acusação, mas Casanova prontamente assume essa identidade como sua, e vai preso no lugar dela. A flechada fatal para ganhar o coração de Francesca definitivamente.


Todavia, durante o julgamento, ela assume o lugar do advogado de Casanova, e depois de revelar o disfarce, confessa ser Bernardo Guardi, e, portanto, autora dos textos que tanto perturbam o Bispo Pucci.


Após essa confissão, Francesca e Casanova são condenados à forca, cada um por sua travessura, e levados à praça no dia seguinte para serem executados. Mas no exato momento em que já estão com a corda no pescoço, e o Bispo está prestes a ordenar a execução, eis que vemos providencialmente a chegada do Cardeal Lopresta, acompanhado de sua “enfermeira”. E como é aniversário do Papa, todos os condenados à morte que deveriam ser enforcados naquele dia são beneficiados com o induto papal. Para desagrado do sanguinário Bispo Pucci, que não estava sabendo que Sua Santidade comemorava mais uma primavera naquele dia, e não fica nada satisfeito com a libertação do libertino e da herege.


Mas ao se aproximar para cumprimentar seu salvador e de sua amada, Casanova percebe que a “enfermeira” do Cardeal é sua mãe, que finalmente cumpriu a promessa de retornar para ele. E o Cardeal, na verdade, é o marido dela, Tito, um ator que aparentemente adora representar cardeais.



A farsa, infelizmente, acaba sendo delatada por um moleque inconveniente que resolveu meter o nariz onde não devia, e percebeu que a tinta da carruagem do religioso estava fresca, e que sob a pintura havia a inscrição: Companhia Teatral.


Será que até no século XVIII essa criançada não aprende que não deve colocar a mão no que não é seu?! Cadê a mãe dessa criatura? Humpf!

Enfim, o verdadeiro Cardeal chega durante a fuga, acompanhado da irmã Beatrice, aquela cuja virgindade deveria ter sido resguardada no convento que Casanova costumava visitar para “fazer caridade”, e a noviça fica toda empolgada ao rever o ex-amante pela janela da carruagem. Tsk, tsk... O que há com as santas desse filme?


Apenas um pequeno esclarecimento no meio da fuga:


E assim a coisa toda fica em família, porque ele vai ficar com a mãe, mas já foi noivo da filha...

Enfim...

Depois de lutar contra os guardas, os inquisidores, o clero e o escambau a quatro, Francesca, Casanova, sua mãe, o padrasto, Andrea, Giovanni, Papprizzio e Victoria conseguem chegar ao cais, e abordar o barco de Papprizzio para sumir logo dali, mas Casanova decide ficar, porque sabe que se partir, os inquisidores irão atrás deles. Então o irmão de Francesca, solidariamente, se propõe para ficar em seu lugar, e ser dali por diante, Casanova.


O autêntico lhe adverte que não basta ter o nome, mas Giovanni Bruni garante que não é contra ter que manter a fama de Casanova; o pai de Victoria não é contra o casamento da filha com ele; e Casanova não é contra embarcar e viver sua história de amor com Francesca.


Então, assim resolvidos, os mocinhos partem para longe, para viver no teatro itinerante com a mãe e o padrasto de Casanova, que abre mão de sua vida de libertinagens pelo amor de Francesca, e ela agora deixará de lado os textos polêmicos que publicava como Bernardo Guardi para escrever as peças do grupo.


Enquanto isso, em Veneza, Giovanni e Victoria foram muito felizes...


Mas não juntos! Ela assumiu sua vocação de safadinha, e ele fez tudo ao seu alcance para manter viva a presença de Casanova no imaginário popular, e principalmente, nas alcovas das mulheres de Veneza.


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