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domingo, 26 de abril de 2015

Desafio #17: Verdade Está Nas Cartas, Mas É Preciso Descobrir Por Si Mesmo...


Com um atraso de aproximadamente dois séculos, eis que venci mais uma etapa do Desafio Literário. Ao que parece, sem temas fixos fica muito mais fácil perder o foco. Mas vamos tentar correr atrás do prejuízo.


O Dia do Curinga
Título Original:
Autor: Jostein Gaarder
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 382
Gênero: Fantasia
Sinopse:
‘Você já pensou que num baralho existem muitas cartas de copas e de ouros, outras tantas de espadas e de paus, mas que existe apenas um curinga?’, pergunta à sua mãe certa vez a jovem protagonista de O Mundo de Sofia.
Esse é o ponto de partida deste outro livro de Jostein Gaarder, a história de um garoto chamado Hans-Thomas e seu pai, que cruzam a Europa, da Noruega à Grécia, à procura da mulher que os deixou oito anos antes. No meio da viagem, um livro misterioso desencadeia uma narrativa paralela, em que mitos gregos, maldições de família, náufragos e cartas de baralho que ganham vida transformam a viagem de Hans-Thomas numa autêntica iniciação à busca do conhecimento - ou à filosofia.
O Dia do Curinga é a história de muitas viagens fantásticas que se entrelaçam numa viagem única e ainda mais fantástica – e que só pode ser feita por um grande aventureiro: o leitor.


O escolhido da vez foi “um livro de autor estrangeiro”. Escrito pelo norueguês Jostein Gaarder, e publicado em 1990, O Dia do Curinga é um desses livros fantásticos, de que eu certamente terei saudades daqui algum tempo, e que, sem dúvida, lerei novamente (possivelmente, muitas vezes ainda).

Para além de uma história maravilhosa e bem contada, o livro desperta certa nostalgia, porque é impossível conhecer certa ilha misteriosa no Atlântico, e não perceber a analogia com obras que fizeram parte da infância, como Alice No País das Maravilhas e Peter Pan.

Mas vamos por partes. Porque este, na verdade, é um livro dois em um: ele conta duas histórias distintas, que se entrelaçam a certa altura. Então, acho justo falar delas separadamente.

A primeira história que nos é apresentada é sobre um garoto chamado Hans-Thomas, que viajou com seu pai da Noruega até a Grécia para procurar sua mãe, que foi embora quando ele tinha quatro anos, porque queria se encontrar, e eles tinham descoberto que ela estava trabalhando como modelo em Atenas. No caminho até lá, eles passam por um posto de gasolina na fronteira da Alemanha com a Suíça, e um anão dá uma lupa a Hans-Thomas, dizendo que ele precisará dela mais tarde. Esse mesmo anão indica o caminho mais curto para atravessar os Alpes e chegar à Itália, mas este caminho se revela o mais longo, fazendo um desvio por um pequeno povoado chamado Dorf, onde a história finalmente começa a ficar interessante: quando um padeiro muito gentil dá quatro pãezinhos doces para Hans-Thomas, advertindo-o de que só deve comer o maior deles quando estiver sozinho. Naquela mesma noite, o garoto descobre o motivo deste pedido: o padeiro havia colocado um livrinho minúsculo (mais ou menos do tamanho de uma caixa de fósforos) dentro do pãozinho, todo escrito com letras microscópicas. E é quando a lupa que ele ganhara do anão passa a ter grande utilidade.
 
 É neste ponto também, que entramos em contato com a segunda história neste livro: sobre um ex-soldado alemão, que um belo dia chegou a Dorf, e se tornou aprendiz do velho padeiro Albert, que era guardião do maravilhoso segredo da ilha mágica e da bebida púrpura. Um segredo que fora confiado a Albert quando ele ainda era um garoto e tinha acabado de perder a mãe, pelo antigo padeiro de Dorf, um ex-marinheiro alemão chamado Hans, que muitos anos antes, após sofrer um naufrágio no Atlântico, e ficar vários dias à deriva num bote, encontrou uma ilha muito estranha, governada por um velho marinheiro alemão chamado Frode, e habitada por cinquenta e três anõezinhos que levavam em suas vestes os números e os naipes das cartas de um baralho...
 
Resumidas assim, as duas histórias parecem não ter qualquer relação entre si. Afinal, o que um garoto que está procurando pela mãe, pode ter a ver com um padeiro, que foi discípulo de outro padeiro, que foi discípulo de outro padeiro, que acabou de voltar da Terra do Nunca do capitão Frode e os cinquenta e três anões? (Pois é, viajei na maionese agora... Hehe). Acontece que, além de as duas histórias estarem realmente ligadas por uma linha do tempo traçada por circunstâncias adversas, ambas as histórias têm um detalhe muito importante em comum: a analogia filosófica.

Hans-Thomas parece ter herdado de seu pai, um homem inclinado à filosofia, uma predisposição natural a questionar o mundo onde vive, e a curiosidade por decifrar os mistérios da vida (quem somos, de onde viemos, para onde vamos, somos parte de algo maior, porque existimos, etc.). Ao passo que a história que começou com Frode e se estendeu até o último padeiro de Dorf, que deu o livro ao garoto, ilustra perfeitamente todas essas questões filosóficas, porém, vistas de um ângulo diferente, superior ao de Hans-Thomas e os demais humanos.

A busca pela mãe parece deixar de ter importância quando eles chegam à Grécia e se deslumbram com os antigos templos em ruínas e as histórias dos gregos antigos. No fundo, parece que essa busca foi só uma desculpa para pai e filho se aventurarem na terra dos filósofos e aprofundarem seus conhecimentos e conjecturas sobre a vida.

Mais adiante, porém, entendemos porque essa viagem foi necessária. Afinal de contas, toda a história de Frode e da ilha mágica não teria sido contada se Hans-Thomas e seu pai não tivessem atravessado a Europa em seu Fiat vermelho para completar a grande paciência de sua família.

Eu confesso que, como disse lá no começo, em alguns momentos, tive a impressão de estar lendo uma versão mais filosófica de Alice No País das Maravilhas (é um pouco difícil não pensar nisso depois de conhecer uma ilha mágica povoada por cartas de baralho. Cheguei a me perguntar, algumas vezes, quando apareceria o coelho branco; porque um buraco de caverna – que fez lembrar a toca do coelho – e, por assim dizer, um Chapeleiro Maluco, é possível identificar na história). E é provável que o autor tenha realmente se inspirado, ao menos em parte, na fábula de Lewis Carroll e outros clássicos infantis, como Peter Pan, para criar sua história. Sobre esta segunda referência, posso comparar o fato de a história de Frode se passar numa ilha desconhecida, habitada por criaturas pequeninas que não podiam envelhecer – mais ou menos como as crianças na Terra do Nunca, que não queriam crescer.

No entanto, apesar de, à primeira vista, não passar de um imenso conto de fadas, incrementado com mitos gregos, profecias antigas, maldições de família e muita filosofia, O Dia do Curinga não é exatamente uma história infantil. Claro que é uma leitura agradável para crianças também, mas o grande cerne da história é muito mais profundo. 

Porque o Curinga é aquela única carta em todo o baralho que parece ser, literalmente, “uma carta fora do baralho”. Porque não pertence a nenhum naipe, não carrega nenhum número, e não é necessária na maioria dos jogos. E, no entanto, nos jogos em que o Curinga aparece, ele geralmente representa todas as outras cartas, pode ter o valor de qualquer uma delas, e não raramente é a mais valiosa.

E mesmo assim, o Curinga continua sendo diferente. Assim como, muitas vezes, nos sentimos diferentes, deslocados, como uma carta fora do baralho. Como se não pertencêssemos a este mundo, ou não o compreendêssemos completamente. No caso do livro, em que o Curinga representa aqueles que estão sempre em busca do conhecimento, e não se conformam em pensar que tudo à sua volta é apenas evidente e ponto final, ele se revelou a carta mais importante naquele estranho jogo de paciência (um jogo em que, na realidade, o Curinga nem mesmo participa), e a única carta que merecia ser libertada de sua prisão. Uma carta especial. Porque ele descobriu o mais importante: descobriu a si mesmo.






* Curiosidade

Na ilha mágica, Frode nos apresenta um curioso calendário organizado a partir das cartas e dos naipes do baralho:

Um baralho comum possui 52 cartas, o mesmo número de semanas do ano. Ou seja, há uma semana para cada carta do baralho. Essas semanas distribuem-se por 13 meses – o mesmo número de cartas por naipe –, que vão do Ás ao Rei, cada um com 28 dias, totalizando um ano de 364 dias. O dia que sobra, é o dia do Curinga.

A cada quatro anos, há o duplo dia do Curinga – representando o ano bissexto.

O ano também tem quatro estações, representadas por cada um dos naipes: Ouros na primavera, Paus no verão, Copas no outono, e Espadas no inverno.

Desse modo, os dias, semanas, meses e anos na ilha mágica são contados nesta ordem de cartas, por 52 anos. O 53° ano, é o ano do Curinga.


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