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domingo, 4 de novembro de 2012

Um Conto de Fadas Nordestino



Imaginem um conto de fadas, cujo cenário é uma cidade no interior de Pernambuco.

A mocinha é bem tradicional, meiga, gentil, sonhadora e apaixonada por filmes românticos.

O príncipe não tem encanto nenhum, porém é rico, e passa a história toda tirando onda de carioca só porque isso supostamente é legal.

O rei, pai da mocinha, é o delegado da cidade, um pai zeloso e profissional autoritário, que cuida em manter a ordem na cidade, dentro do possível.

E como em todo bom conto de fadas, não pode faltar um bobo da corte, alguém para fazer graça e animar até as cenas mais tensas, temos um Cabo do Exército atrapalhado, que acaba de arrumar uma nova mulher, e passa a história inteira tentando apresentar as armas à sua nova senhora.

Agora imaginem que a mocinha do nosso conto de fadas deixe o príncipe sem encanto por um plebeu malandro e cheio de conversa fiada, que ainda trouxe na bagagem uma amante vingativa e invejosa, cujo marido é um pistoleiro valente que jurou o malandro de morte quando descobriu o caso dele com sua mulher.

Embora este conto possa ser chamado de “A Princesa e o Malandro”, ele é mais conhecido como Lisbela e o Prisioneiro.





Esse filme, além da história divertida, traz algumas características interessantes, como Lisbela desvendar os segredos da estruturação de um filme. E à medida que a trama se desenrola, percebemos que este filme também segue a lógica desvendada por ela.

É tudo muito óbvio. Sabemos com antecipação tudo o que vai acontecer, mas como a própria Lisbela disse: “a graça não é saber o que acontece. Mas como acontece e quando acontece”.

Então o que acontece nesta trama?
                 

Primeiro momento: APRESENTAÇÃO DOS PERSONAGENS




Conhecemos Lisbela, que é a mocinha sonhadora e apaixonada por filmes americanos, e seu noivo, o príncipe desencantado com falso sotaque carioca, Douglas. Eles vão ao cinema como bons namorados comportados, típicos dos anos 50.

Também conhecemos Leléu, o trapaceiro que muda de nome e de profissão a cada cidade para ganhar a vida da forma como melhor sabe. A princípio ele leva a mulherada no bico para vender seu suposto elixir para curar a impotência dos maridos, e aproveita para pegar geral. Por aí percebemos que ele vale menos que um saco de farinha. Depois, em outra cidade, ele mostra seus conhecimentos de esoterismo, e mais adiante, suas aptidões artísticas como trapezista.

Então ele chega a Boa Vista para apresentar, com o pseudônimo Patrick Mendel, A Paixão de Cristo na praça. E é onde conhecemos Inaura, para quem, entre uma fala e outra da peça, Leléu aproveita para destilar gracejos de gaiato.

E depois de “conhecê-la mais profundamente”, Leléu conhece o marido dela, Frederico Evandro, o vilão de nossa história. Enquanto sua mulher usufruía uma hora extra com Leléu, o coitado estava no serviço. Leléu só não podia esperar que o marido de sua nova conquista ganhasse a vida como matador.


Segundo momento: O ENCONTRO DOS MOCINHOS

“Agora que já vimos a mocinha e já vimos o mocinho, está na hora de ver os dois juntos”.

Isso acontece no parque de diversões, em Vitória de Santo Antão, cidade onde Lisbela vive, quando ele apresenta um número em que sua assistente se transforma em Monga, a mulher gorila. Leléu faz Douglas desistir de entrar para ver o número, e depois que todos saem correndo, ele fica sozinho com Lisbela, para quem ele apresenta um novo Leléu, muito diferente do gaiato que conquistou Inaura. Chega até a declamar alguns versos de um poema de Camões, e assim, conquista o coração da mocinha.
                                     

Terceiro momento: O PERIGO ESPREITA




Frederico Evandro chega à cidade, e começa a interrogar as pessoas em busca do suposto Patrick Mendel. Logo em seguida, o povo corre pela rua fugindo de um touro bravo. Então Frederico saca o revolver, pronto para atirar no animal, mas neste momento surge Leléu, que se agarra aos chifres do touro e o coloca em retirada, salvando assim a vida do homem que quer dar cabo da sua.
                            

Quarto momento: CONFLITO




Leléu encontra Lisbela no cinema, e depois de beijar a mocinha, ela decide desistir do casamento para viver seu amor com Leléu. Mas logo que isso acontece, Inaura reaparece para avisar ao malandro que Frederico está em seu encalço.

Então Leléu percebe que sua vida é imprevisível demais para uma moça com a vida tão direitinha quanto Lisbela, e vai até o cinema se despedir da mocinha. Lisbela novamente nos dá uma lição de que entende do andamento das histórias de amor, dizendo que nem quer saber o motivo de força maior que está fazendo ele desistir dela, porque ou é mentira ou ela vai gostar ainda mais dele. Então Inaura aparece para apressar Leléu, e Lisbela percebe que o que quer que ele estivesse planejando lhe dizer era mentira.
                              

E então: O FINAL



A partir daqui a história se encaminha para o desfecho, quando Leléu decide pedir ajuda ao valente que ele salvou do touro bravo, e que jurou se livrar de um inimigo seu em pagamento, sem saber que o tal valente era o próprio Frederico, de quem ele está fugindo.

Então o matador, quando percebe que ficou devendo a vida ao homem que jurou matar, garante que cumprirá suas duas promessas: matará Leléu, para cumprir sua vingança, e depois se matará, para cumprir a promessa de se livrar do inimigo dele.

Porém, Lisbela surge na hora exata para dar sua maior prova de amor a Leléu, fazendo-o ser preso, no exato momento em que ele estava prestes a tomar o teco da fera, salvando assim sua vida.

Há uma dúvida Shakespeariana durante o casamento de Douglas e Lisbela “fugir ou não fugir, eis a questão”, e nessa confusão, todos acabam virando reféns de Frederico – a maior de todas as ironias – dentro da delegacia!

Teria sido realmente engraçado se o grande vilão da história tivesse sido assassinado pela doce Lisbela. De qualquer modo, ser morto pelas costas por uma mulher era um final que o valentão não esperava.


É raridade a gente ver um filme nacional realmente bom. Engraçados têm vários, cheios de apelos de todos os tipos, mas bom de verdade, com a fórmula simples de humor, em que mesmo que a piada seja batida, a interpretação e o contexto nos arrancam risadas espontâneas, são poucos.

“Lisbela e o Prisioneiro” é um desses milagres nacionais, inspirado na obra homônima de Osman Lins, que fora antes adaptada para o teatro. É verdade que o livro tinha vários outros personagens, mas apesar disso a versão para o cinema foi impecável, incorporando todos os elementos principais da trama, de maneira consistente, mantendo a comicidade e a simplicidade do texto.




Um comentário:

  1. Milagre nacional é ter Guel Arraes na direção e Selton Mello no elenco (sou fã dos dois).
    Escreve sobre a Grande Família depois, gostei das suas resenhas. Abraço

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