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terça-feira, 17 de outubro de 2017

O Navio Que Só Os Futuros Presuntos Podem Ver



Já que o tema é Halloween, nada mais apropriado do que falar dos caras que (ganham?) a vida caçando monstros a torto e a direito. Aqueles dois simpáticos filhos de João e Maria – e não estou falando das criancinhas que assaram a bruxa má! Embora eles tenham encontrado ao menos um dos dois e a bruxa doceira lá pela décima temporada da série – que gostam de se envolver com o Sobrenatural.
Num dos meus episódios favoritos da terceira temporada, os irmãos Winchester tiveram um encontro com uma divertida ladra e um navio fantasma.



Numa cidadezinha portuária chamada Sea Pines, no estado de Massachusetts, uma mulher está prestes a sofrer uma invasão de privacidade estilo Big Brother, ao entrar despreocupadamente no chuveiro. Mas não se empolguem, meninos; Supernatural é uma série de família! Se bem que alguém nesse episódio não está muito preocupado que ela possa ser também uma mulher de família, que provavelmente chegou cansada do trabalho e deixou o jantar esquentando no micro-ondas, enquanto tomava um banho quente e relaxante para se livrar do estresse.
Enquanto ela enxagua tranquilamente os cabelos, alguém a observa. E esse alguém não está com boas intenções. Só que são más intenções do tipo Norman Bates com Mary Crane, mas em vez de uma faca, a criatura utiliza a água do chuveiro – ou os setenta por cento de água de que é constituído o corpo humano – para afogar sua vítima.



Agora me digam: quantas vezes vocês já ouviram falar de alguém que tenha se afogado no chuveiro? Esquisito, não é? Pois é... E foi exatamente por isso que os irmãos Winchester decidiram dar uma passadinha pela cidade e verificar que diabo estava acontecendo. Ou melhor, que diabo atacou essa mulher.
E se já era estranho ela ter se afogado no chuveiro, imaginem agora descobrir que, pouco antes de morrer, ela viu um Navio Fantasma.



Policiais de verdade poderiam até pensar que a tia Gertrude Case estava ficando pancada, ao mencionar a visão do navio fantasma que sua sobrinha Sheila teve antes de morrer. Mas os irmãos Winchester sabem que nada é tão estranho que não possa ser verdade. E geralmente, onde tem morte esquisita, tem assombração.
E é claro que Sam, aquele cara estudioso, que está sempre lendo alguma parada esquisita num livro ou na internet, conhece diversas lendas de navios fantasmas, que existem no mundo inteiro, e, invariavelmente, são presságios de morte.
Em suas pesquisas, Sam descobre que esses afogamentos no seco acontecem a cada 37 anos naquela cidade, sempre na mesma época do ano, mas não sabe exatamente a quê estão ligados, nem reconhece um padrão entre as vítimas.
Mas os Winchester não são os únicos trabalhando no caso.
Antes dos bonitões aparecerem para interrogar a tia da vítima, outra suposta investigadora chamada Alex havia lhe garantido que o caso estava encerrado, e que os legistas tinham chegado à conclusão de que o afogamento de Sheila fora acidental. Agora que foi informada de que o caso continua aberto, Gertrude decide não pagar o que havia prometido à Alex, o que a deixa furiosa.



Acontece que essa Alex é uma velha conhecida dos rapazes, só que eles a conhecem por outro nome falso, Bela Talbot, uma ladra de artefatos raros de ocultismo, que, num passado não muito distante desse episódio, tentara roubar um pé de coelho que pertencera a John Winchester. Eles só não imaginam o quê ela pode estar querendo nessa história, já que, com exceção do Navio Fantasma, nenhum objeto mítico foi mencionado no caso.
Naquela noite, a segunda morte acontece, e a vítima da vez é um milionário da cidade, que se afogou na torneira do banheiro, enquanto fazia a barba. E, de acordo com seu irmão, a vítima também viu o Navio Fantasma pouco antes de morrer.



Oh-oh! Já sabem quem será a próxima vítima, hein, meninos! Eles até tentam alertar o cara sobre o perigo que está correndo, e como o milionário é cético em relação a presságios de morte, decidem ficar de tocaia em frente à mansão do sujeito para tentar salvá-lo, mesmo ele já tendo deduzido que os rapazes não são policiais à paisana coisíssima nenhuma.



Não foi dessa vez que os rapazes conseguiram salvar um inocente das garras de um fantasma revoltado. Dean até tentou atirar com a pistola de sal na assombração, estraçalhando o vidro do carro importado do sujeito, mas foi tarde demais. O homem já estava morto com a cara na volante.



Pelo menos ele fez uma coisa útil nesse episódio antes de enfiar a cara na buzina, pois graças à sua descrição, Bela conseguiu identificar o navio que está assombrando os condenados à morte. E graças às fotos que ela conseguiu reunir, os Winchester conseguiram identificar o fantasma: um marinheiro que foi enforcado no navio em 1859, acusado de tentar iniciar um motim. O marinheiro tinha 37 anos, o que explica o ciclo de 37 anos para as mortes recomeçarem na cidade. Os restos foram queimados, mas como era costume na época, sua mão direita foi cortada como um troféu, e transformada na Mão da Glória, um artefato mítico poderoso, muito apreciado por praticantes de ocultismo, que, por acaso, está exposta no Museu Marítimo local, como peça macabra da história marítima. E eles receberam essa informação de quem? De uma mulher que ganha a vida roubando artefatos míticos para vender no mercado negro. E eles nem desconfiaram das boas intenções dessa falsa samaritana. Apesar de passarem a vida caçando seres bizarros, de vez em quando esses rapazes são muito ingênuos...
Aliás, permitam-me fazer uma observação a respeito da escolha de hospedagem dos Winchester nesse episódio. Porque eles já se hospedaram em lugares decadentes antes, mas isso aqui é o cúmulo! Isso é um hotel caindo aos pedaços ou eles invadiram uma casa abandonada?



De volta ao episódio, Bela informa aos rapazes que haverá um baile beneficente no Museu naquela noite, e ela conseguiu convites com a tia da primeira vítima, Gertrude Case, com a condição de que um dos bonitões a acompanhe. Adivinha quem foi o escolhido da velha? Sam Winchester!



Enquanto Sam leva o Impala para buscar a Gert, Bela se encarrega do outro brinquedo da noite... Digo, busca seu “maridinho” Dean na casa abandonada onde estão hospedados, e o leva para o baile, pedindo que ele se comporte e aja como se frequentasse bailes de gala o tempo todo.



E como, naturalmente, ninguém deixaria objetos valiosos expostos no hall de entrada ou no salão de bailes repleto de gente estranha – afinal de contas, Aristocratas Vemos, Gatunos Não Sabemos –, Bela finge um desmaio para conseguir ter acesso aos andares superiores do Museu, onde a Mão da Glória provavelmente está guardada.



Um segurança os conduz até uma sala no primeiro andar, onde Dean deita “sua esposa” num sofá de couro, e fica com ela até que se recomponha. Mas é só o segurança virar as costas para eles iniciarem uma pequena “briga conjugal”.



Então, depois de dar uma espiada no corredor para ver se o segurança não está montando guarda, Dean sai de fininho para procurar a mão mumificada do marinheiro enforcado, enquanto Bela continua fingindo de morta.
Enquanto isso, lá no salão de bailes, Sam está dançando o funk que o Crowley inventou nos braços da tia Gertrude – mas pode chamá-la de Gert, bonitão –, porque a velha está cheia de saliência para cima dele.



Aliás, uma observação aqui pro Sam: chega de champanhe para essa senhora! E, por via das dúvidas, veja bem o que vai deixar ela comer, porque se alguma coisa aí tiver amendoim a casa vai cair pro teu lado, garoto... Fica de olho!
O bom é que além da franga, a velha soltou também a língua, e começou a contar os podres de todo mundo na cidade, começando pelos irmãos milionários assassinados pelo Gaspazinho do mal, que, de acordo com ela, envenenaram o pai para ficar com a herança. Sam acha essa história interessante, principalmente depois de saber que anos atrás, Sheila também foi acidentalmente responsável pela morte de seu primo Brian, quando o carro que ela dirigia capotou. Ela saiu ilesa, mas o primo morreu na hora. Pode ser o padrão que ainda não tinham identificado sobre a escolha das vítimas: gente que derramou o sangue da própria família.
Enquanto Sam está sendo informado, assediado e bolinado – não necessariamente nessa ordem –, Dean encontra a mão roubada do defunto exposta numa caixa de vidro, e dá uma de James Bond, desligando o alarme da caixa para roubá-la, guardando-a no bolso interno do smoking.



Mal sabe ele que está prestes a se envolver numa situação constrangedora. E não estou falando sobre ser apanhado com uma mão mumificada bizarra no bolso.
Acontece que Bela estava apreciando os brinquedinhos disponíveis na sala onde foi deixada para descansar, já pensando em surrupiar um naviozinho que encontrou dentro de uma garrafa, quando de repente o segurança bate na porta. E como Dean ainda não voltou, ela é obrigada a improvisar: despindo uma manga do vestido, ela abre só uma frestinha da porta, afirma que está se sentindo melhor, mas que ainda não pode abandonar aquela sala, dando a entender que ela já está bem até demais.



A porta se fecha novamente, o segurança escuta a mulher rindo, dizendo que o “marido” está lhe fazendo cosquinhas... Mas ao dobrar um corredor, ele dá de cara com quem?



Depois de esbarrar no suposto marido, e, ao que tudo indica, corno do ano, o segurança sai constrangido, já prevendo que a história vai feder, e ele prefere estar longe da linha de tiro, enquanto Dean, sem entender nada, entra na sala, encontra Bela sozinha, recolocando a manga no lugar, e pergunta o que aconteceu.



Sam é quem fica mais feliz por poder finalmente ir embora, e se livrar da velha de mão boba. E Dean deveria ter prestado mais atenção em outra mão nada boba, porque, ao entrar no Impala, e enfiar a mão no bolso interno do smoking para exibir seu troféu ao irmão, se dá conta de que Bela lhe passou a perna, trocando a mão amaldiçoada pela miniatura do navio na garrafa que afanou na sala de espera.



Lembram que eu disse que eles deviam ter ficado de olho nela? Então...
Acontece que Bela sabia onde estava aquela raridade porque já tinha um comprador interessado naquela coisa grotesca. A ladra saiu do baile e foi direto fazer a entrega. Ela só não esperava que, enquanto estivesse contando as cédulas de seu pagamento no carro, avistaria o Navio Fantasma vindo em sua direção.



Pois é, moça, tu tá ferrada!
Então ela volta a procurar os Winchester na casa abandonada onde continuam hospedados, e encontra-os armados e furiosos por ela tê-los levado de bobeira àquela festa beneficente, feito Dean passar por corno, e Sam se passar por Lobo Mau, quase tendo que papar a vovozinha, para no fim ela vender a Mão da Glória, em vez de deixá-los queimar os últimos restos mortais do marinheiro fantasma e acabar com a matança.



Mas vejam só como a vida é engraçada: ela usou os rapazes como distração para conseguir seu troféu, e acabou vendendo a única coisa que podia salvar sua vida. Uma grande ironia...
E se antes eles já pensavam mal da moça, agora têm certeza de que ela não presta, afinal, o fantasma vingador persegue pessoas que derramaram o sangue da própria família, pois o capitão que mandou enforcá-lo era seu irmão.



Bela não quis contar para os rapazes, mas eu conto para vocês, uma história que só foi revelada alguns episódios mais tarde. Bela, cujo verdadeiro nome era Abbie – diminutivo de Abigail –, vivia com os pais no Reino Unido. Tudo leva a crer que seus pais eram abusivos, e, um belo dia, quando era adolescente, ela fez um pacto com um demônio da encruzilhada em troca da morte deles. Correndo o risco de revelar spoilers de outros episódios: mais tarde, quando estava vencendo o prazo para virem buscar sua alma e arrastá-la para o inferno, ela fez outro acordo, prometendo roubar o Colt, aquela arma que pode matar diversas criaturas sombrias, incluindo demônios, e entregar a cabeça do Sam numa bandeja de prata. Nem é preciso dizer que as coisas não saíram exatamente como ela planejou...
De volta à trama desse episódio, os rapazes sugerem à Bela que devolva o dinheiro e pegue a mão do defunto de volta. O problema é que o comprador mora do outro lado do oceano, e seu prazo de validade está bem apertado no momento; a Mão da Glória não chegaria a tempo.
Eles até poderiam deixar que ela se virasse, afinal, ela é a única responsável pela encrenca em que se meteu. Mas, como são caras legais, decidem tentar algo que pode ou não funcionar. Eles vestem Sam de monge, constroem um altar profano no cemitério, e com um ritual de invocação em latim, invocam o espírito do capitão. Começa a cair o maior pé d’água enquanto eles fazem o ritual, mas os rapazes não se deixam intimidar.



O que não demora muito para acontecer, pois o fantasma do marinheiro enforcado é o primeiro que aparece, jogando Dean de lado para poder acariciar o rosto de Bela... E fazê-la jogar para fora a água que não bebeu, afogando-a de dentro para fora, como fez com os outros.
Dean apressa a leitura do irmão, enquanto tenta desafogar a moça.
Eis que o fantasma do capitão aparece, atendendo ao chamado dos mocinhos, para pedir perdão ao irmão, que, ainda enfurecido, desiste de afogar Bela, se lança contra ele, e os dois se dissolvem em água diante do altar.



Não se sabe se o fantasma teve sua vingança, destruindo o espírito do irmão traidor, ou se os dois se perdoaram e esse foi um abraço grotesco e muito molhado. Na dúvida, vamos crer que foi um pouco dos dois.
Assim, Bela é salva pelos irmãos supergost... Digo, superpoderosos. E já que eles salvaram sua vida, e ela é cara de pau demais para reconhecer e agradecer como qualquer pessoa normal, ela dá dez mil dólares aos rapazes, e vocês entenderam o que ela quis dizer.



Pelo menos dessa vez o rolo com o fantasma rendeu uma graninha, hein meninos! Já é um progresso...




Apenas a título de curiosidade, a escolha dos nomes falsos da ladra desse episódio é interessante, e parece referenciar uma preferência da personagem por filmes clássicos de terror. Os irmãos Winchester a conheceram como Bela Talbot, provavelmente uma mistura de Bela Lugosi, o ator húngaro que interpretou Drácula no filme de 1931, cujo sobrenome ela também utilizou em outro episódio, e Lawrence Talbot, o nome do personagem que virou O Lobisomem no filme de 1941, interpretado por Lon Chaney Jr.. Em outra ocasião, ela utilizou também Mina Chandler – Mina Murray era a mocinha de Drácula, e Helen Chandler a atriz que a interpretou no filme de 1931.




Este foi o especial de Halloween de hoje. Semana que vem vamos matar a saudade do fantasma do Pirata Alma Negra, numa versão, não como era, mas como poderia ter sido.
Até lá! *-*