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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Como Enrolar Um Rei [Supostamente] Esperto, Sendo Mais Esperta Que Ele



Estamos de volta com mais um episódio da série alemã Sechs auf einen Streich (Os Melhores Contos de Grimm). Como prometi, apresentarei meus quatro episódios favoritos da série, e para esta segunda postagem, escolhi um conto que não é muito conhecido no Brasil, mas que é realmente encantador.

A Esperta Filha do Camponês

 
Como na postagem anterior, por se tratar de uma série alemã, cujos atores são completamente desconhecidos no nosso país, achei interessante incluir uma pequena ficha técnica apresentando o elenco para vocês. Então vamos lá:

Publicado no segundo volume da coletânea dos Irmãos Grimm em 1814.
Título original: Die kluge Bauerntochter
Elenco:
Bauerntochter (A Esperta Filha do Camponês): Anna Maria Mühe
König (Rei): Maxim Mehmet
Königsmutter (Mãe do Rei): Sunnyi Melles
Hofrat von Müller (Conselheiro Moleiro): Rolf Kanies
Cousine (A esposa malvada do primo do Rei): Katharina Heyer
Vetter (Primo do Rei): Daniel Zillmann
Armer Bauer (O Camponês): Falk Rockstroh
Magd (Criada do Palácio): Sabine Krause
Coiffeur (Estilista Real): Guido Hammesfahr
Prinzessin Eulalia (Princesa Eulália): Nikola Kastner
Fuhrmann (O dono do potro): Georg Veitl
Ochsenbauer (O dono dos bois): Jörg Rühl

Agora sim, vamos ao conto:

Era uma vez, um Rei que estava à procura de uma rainha, porque havia uma lei que o obrigava a casar antes de seu 30° aniversário, ou o trono passaria para o seu primo. Mas o Rei, que se julgava um intelectual, não queria se casar com uma garota burra, então, propunha a todas as suas princesas pretendentes que respondessem a uma charada. E como das doze ou treze que recebeu, nenhuma delas respondeu corretamente, e uma delas apaixonou-se e casou com seu primo, ele ficava cada vez mais desanimado, acreditando que só havia mulheres burras pretendendo sua mão. E apesar dos conselhos de sua mãe, ele não queria se casar com uma mulher bela com quem não pudesse conversar. A cada dispensa do Rei a uma pretendente, seu primo e a esposa malvada comemoravam, vendo-se mais perto da coroa.



Ali no reino, vivia um camponês que tinha uma filha muito esperta. E como não tinham terra nenhuma, ela sugeriu que eles plantassem uma horta no telhado, e esperassem que alguém visse e informasse ao Rei, ou que o próprio Rei visse e os chamasse para perguntar sobre aquilo, e então, eles diriam que plantavam no telhado porque não tinham terra. O Rei certamente diria que não poderia crescer nada naquela horta, porque não há terra no telhado, e então, eles aproveitariam para pedir ao Rei que lhes desse terras para poder plantar. E se ele negasse, pelo menos teriam tentado.

E assim aconteceu. O Rei viu, com sua luneta, a horta plantada no telhado, e mandou chamar o camponês para perguntar sobre aquilo, e este respondeu conforme sua filha o orientara. Então, o Rei, achando aquilo engraçado, decidiu lhes dar terras para plantar.



O camponês e sua filha ficam muito felizes com a concessão do Rei, e, ao começar a arar o terreno, encontram um pilão de ouro enterrado lá. O camponês, que era um homem honesto, decidiu entregá-lo ao Rei, em sinal de boa vontade. Sua filha, no entanto, aconselhou a não fazer isso, porque não encontraram a haste do pilão, e se forem entregá-lo, o Rei vai querê-la também, e pensar que o estão roubando. Mas o pai dela, teimoso como uma mula, achou que seria mais honesto entregar o pilão assim mesmo, e foi novamente ao castelo falar com o Rei. E, de novo, as coisas aconteceram como sua filha dissera: como ele não tinha uma haste de ouro para entregar com o pilão, o Rei mandou colocá-lo numa cela a pão e água, até que ele contasse onde a escondeu.



Então, o homem passou o dia todo gritando na cela que devia ter feito o que sua filha dissera. Ao ouvi-lo, o Rei, curioso, desejou conhecer a filha do camponês e conferir se era realmente tão esperta quanto seu pai dizia.

Mandou trazê-la ao palácio, e, depois de conferir que ela realmente parecia esperta, propôs que ela resolvesse uma charada. Se respondesse certo, ele libertaria o pai dela, e a tomaria como esposa – muito a contragosto da Rainha, sua mãe, que esperava mais do que a mera filha de um camponês como nora. O Rei pediu que a garota viesse até ele sem estar usando roupas, mas sem estar desnuda também; que não viesse nem de dia nem de noite; que não viesse a pé, nem num cavalo, nem numa carroça; e que viesse com presente, mas sem dar presente.



Então ela voltou para casa, e começou a pensar numa maneira de resolver a charada. Pegou uma rede de pesca e se enrolou nela, usando flores para cobrir os buracos que a deixavam desnuda; pegou também um burro emprestado com uma vizinha, propondo-se a lavar a roupa dela de graça por um mês em troca, e amarrou uma espécie de jangada atrás dele, para que ele a arrastasse. Assim, ela foi ao palácio bem cedo, no fim da madrugada, com o dia amanhecendo, mas com a lua ainda aparecendo no céu, e levou um passarinho, que soltou diante do Rei, cumprindo, assim, toda a charada: não estava com roupas nem desnuda; não veio de dia nem de noite; não veio a pé, nem num cavalo, nem numa carroça; veio com presente, mas não deu presente. O Rei, satisfeito por constatar que ela era realmente esperta, cumpriu também sua parte no acordo: libertou o pai dela e a tornou sua noiva.



A Rainha-Mãe não gostou muito do arranjo, a princípio, pois queria que seu filho se casasse com alguém de berço nobre – alguma princesa, por exemplo –, mas o Rei não voltou atrás com sua palavra, e pediu que transformassem a filha do camponês numa noiva adequada para a realeza. Então, a Rainha-Mãe e o Conselheiro Moleiro (uma espécie de mordomo real) levaram a futura rainha a uma sala, onde a cercaram de cabeleireiros e maquiadores, que rapidamente fizeram-na parecer alguém da corte.



E, ao perceber que a filha do camponês era muito amiga de uma das criadas do palácio, a Rainha-Mãe advertiu sua futura nora de que não era adequado que ela tivesse amizade com a criadagem. A garota, porém, não gostou dessa advertência, e demonstrou não estar disposta a mudar nesse sentido.

Ela também não tinha gostado do arranjo a princípio, e dissera isso ao Rei, pois sempre quis se casar por amor. Mas como o Rei não volta atrás em sua palavra, e ela não acha meios de recusá-lo, acaba aceitando casar-se com ele.

A filha do camponês sai pelo palácio, sem ter ainda trocado seus trapos por roupas da realeza, e esbarra no primo do Rei e na esposa malvada no caminho. Eles estão ensopados, pois estavam colhendo plantas na margem do rio, e acabaram caindo na água. A megera tem um livro de magia negra nas mãos, que a filha do camponês parece não notar, até porque, está mais preocupada com o ramo de cicuta que o primo do Rei trouxe de sua aventura, que ela imediatamente confisca, alertando-os sobre aquilo ser venenoso. Como se eles já não soubessem... Pois se seu objetivo era justamente transformar aquelas folhas num chá e servir ao Rei para ficarem com o trono...



E enquanto está levando o ramo venenoso para jogar numa lixeira, a filha do camponês encontra a sala de astronomia do Rei, e descobre que ele gosta muito de observar as estrelas, os planetas e as constelações. Ele se impressiona ao vê-la bonita com o cabelo arrumado, e tenta, sem sucesso, esconder o mapa estelar de uma das constelações que andava observando, cujas estrelas ele ligou, formando o desenho do rosto dela.



Ela vê sobre a mesa dele um pote com pó de papoulas, e pergunta se ele tem insônia. O Rei confirma, e ela o adverte de que não pode consumir demais, pois as papoulas são perigosas.

Depois de dar a ela um vestido bonito, o Conselheiro Moleiro e a Rainha-Mãe tentam ensiná-la a dançar. A princípio, ela pega o Conselheiro pelo braço e começa a rodar e pular, como está acostumada a dançar entre os seus, deixando-o tonto. Em seguida, a Rainha lhe diz que ela conduz demais, e que não pode imaginar o Rei dançando assim, e ensina o modo adequado de se dançar na corte: uma dança calma, pausada, com passos aos pares, apenas de mãos dadas com o Conselheiro Moleiro.



Assim as coisas vão começando a se ajeitar para a filha do camponês, que já não repudia mais a ideia de se casar com o Rei. Até que sua amiga, que trabalha como criada no castelo é pega dando uma cesta de comida a um pobre fora do palácio, e levada à presença do Rei. A criada explica que aquelas verduras e frutas iriam virar lavagem para os porcos, mas o Rei encontra um pedaço de bacon no meio da cesta.



O Rei, então, manda todo mundo sair da sala, exceto a criada e a filha do camponês. A criada implora o perdão do Rei, e ele promete perdoá-la, se conseguir responder a uma charada.



A criada pensa um pouco, e a filha do camponês, percebendo que ela não conseguirá resolver sozinha, imita um bebê engatinhando, uma pessoa andando sobre os dois pés, e depois com uma bengala – usando o cetro do Rei para fingir. E a criada compreende a dica.



Então o Rei a perdoa, apesar de perceber que ela teve a ajuda de sua noiva para resolver a charada. E quando é repreendida por ele, a filha do camponês diz que ficou com pena da criada. O Rei, então, pede que não o engane de novo, e ela promete se comportar.

Naquela noite, passeando pelo jardim, eles confessam a afeição que começa a nascer um pelo outro, e ele anuncia que sairá em comitiva pelo reino no dia seguinte, mas que não seria adequado levá-la consigo antes de estarem casados.

Então, ela fica sozinha no palácio no dia seguinte, enquanto o primo dele e a esposa malvada arquitetam outro plano para chegar ao trono: eles pretendem colocar veneno na garrafa de vinho para que a filha do camponês beba e morra, e assim, o Rei continue solteiro.



Durante o desfile pelo reino, o Rei depara-se com uma briga para resolver: pois um carroceiro tinha uma égua que estava prenha, e, enquanto eles se viraram para saudar o Rei, a égua pariu, e outro sujeito reclamou para si a posse do potro, pois, segundo ele, a égua se deitara com seus bois. O Rei é incumbido, então, de decidir a quem pertencia o potro, e resolveu que o animal deveria ficar onde se deitou, ou seja, com o homem dos bois.


O carroceiro fica indignado, pois o Rei cometeu um engano. Então, o camponês diz que talvez sua filha possa ajudar. E aconselha o carroceiro a ir até o palácio falar com ela.

Ela, porém, lembra-se de que o Rei pediu que não interferisse mais na maneira como ele trata os súditos, e pede que o carroceiro prometa não contar quem lhe aconselhou. Então diz o que ele deve fazer.

Pela manhã, quando o Rei retorna do passeio pelo reino, lá está o carroceiro em seu caminho, diante dos portões do palácio, lançando uma rede no chão seco, tentando pescar.



O Rei, indignado, manda colocá-lo na cela a pão e água, e baterem nele até confessar quem lhe aconselhou a fazer aquilo. Claro que o Rei sabe exatamente quem foi, e como o coitado do carroceiro está disposto a morrer sem dizer nada, a filha do camponês pede que o Rei o liberte, pois ninguém deve sofrer por sua culpa. O Rei, furioso, pergunta por que ela o engana, e o expõe diante de seus súditos.



Então, o Rei, envergonhado, pede que ela volte para a casa de seu pai, pois não a quer mais como esposa.



Entristecido, porém, por dispensar tão covardemente a única mulher de quem realmente gostou, ele diz que ela pode levar do castelo, como presente de despedida, aquilo de que ela mais gosta. Em seguida a deixa sozinha no quarto.

Nesse meio tempo, a esposa de seu primo aproveitou que todos estavam distraídos com a confusão para misturar o veneno ao vinho e deixá-lo na mesa do Rei, e mal teve tempo de se esconder antes que a filha do camponês entrasse na sala de astronomia, para pegar o vinho e um pouco de papoula em pó numa tigela.



Mas a filha do camponês não pegou o vinho para beber. Ela preparou um sonífero amassando as papoulas num pilão, misturou ao vinho do Rei, e colocou a garrafa de volta na mesa dele. Quando ele bebeu naquela noite, caiu num sono profundo.

O primo do Rei e sua esposa malvada viram-no cair adormecido, e, pensando que ele tinha tomado o vinho envenenado que prepararam, começaram a comemorar seu triunfo e a morte dele.



Naquela mesma noite, o corpo do Rei foi enrolado numa manta, colocado numa carroça e levado para longe do castelo.



Enquanto isso, o Rei é despertado por sua noiva na cabana do pai dela, e pergunta como foi parar lá.



Ele, emocionado, percebe que ela o ama de verdade, e como também a ama, reafirma a proposta de casamento, e casa-se com ela naquele mesmo dia, numa grande celebração diante de todo o reino. Para desagrado de seu primo e da esposa, que fazem as malas e vão embora do castelo para sempre.


E quem pegou o buquê da noiva? A mãe do Rei! E já ficou cheia de graça para cima do Conselheiro Moleiro.



Parece que o Conselheiro Moleiro será o novo papai de Sua Majestade...




E no próximo post: a história de uma princesa orgulhosa e de um príncipe que não vê problemas em se misturar com a gentalha.

Aguardem!







4 comentários:

  1. Como assistir a esse filme?

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    Respostas
    1. A série vai e volta no canal +Globosat (TV a cabo), e também passa aos sábados na Cultura.

      No YouTube, se tiver, provavelmente é só com o áudio original (em alemão) sem legendas.

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  2. https://www.youtube.com/watch?v=rpSaEB5Y5Ds&t=1340s

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