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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Ela Perde o Sapato, Mas Não Perde o Carisma


E finalmente chegamos ao último episódio prometido da série alemã Sechs auf einen Streich (Os Melhores Contos de Grimm). Para encerrar com chave de ouro, eu reservei um conto bem conhecido de todos, mas aposto que muitos de vocês ficarão surpresos ao conhecer a versão original, contada diretamente pelo povo alemão.

A Gata Borralheira



Sim, é a história da Cinderela; mas sem Bibit Bobit Bum.


Como nas postagens anteriores, por se tratar de uma série alemã, cujos atores são completamente desconhecidos no nosso país, achei interessante incluir uma pequena ficha técnica apresentando o elenco para vocês. Então vamos lá:

Publicado no primeiro volume da coletânea dos Irmãos Grimm em 1812.
Título original: Aschenputtel
Elenco:
Aschenputtel (Cinderela): Aylin Tezel
Prinz Viktor (Príncipe Viktor): Florian Bartholomäi
Stiefmutter (Madrasta): Barbara Auer
Stiefschwester Annabella (Annabella, a irmã postiça): Pheline Roggan
König Klemens (Rei Clemente, pai de Viktor): Harald Krassnitzer
Magd Johanna (Johanna, a outra criada da Madrasta): Anna Brüggemann
Knecht Benno (Conselheiro do Rei): Axel Siefer

Agora sim, vamos ao conto:

Era uma vez, num reino distante, uma mocinha que era muito maltratada pela Madrasta. Depois que seu pai morreu, e a Madrasta assumiu o controle de sua fazenda, Aschenputtel (Cinderela, para os íntimos), foi reduzida a mera criada, e obrigada a realizar os serviços mais imundos da casa.

Como se sente sozinha, Aschenputtel visita com frequência o túmulo de sua mãe, sob uma nogueira, onde uma pombinha branca está sempre empoleirada, como se o protegesse. E como não tem ninguém por ela, um encanto na nogueira faz todo o possível para tornar sua vida mais agradável. Naquela manhã em particular, ao visitar o túmulo da mãe, ela ganha de presente um pente para que não ande tão despenteada.

Mas ao voltar para casa, Aschenputtel não teve tempo de guardá-lo, pois sua Madrasta já estava procurando por ela, para que levasse alguns leitões para um comprador na cidade. Então ela os colocou na carroça e partiu imediatamente.

Aschenputtel aproveitou que o burro que puxava a carroça empacou no meio do bosque para fazer uma boquinha, e nesse momento quase foi atropelada por um sujeito que vinha a cavalo, e a fez cair de cara na lama.

Com o susto, o burro se adiantou, fazendo a carroça bater numa pedra; a portinha que impedia a saída dos leitões se abriu, e todos eles fugiram. Então, Aschenputtel e o caçador atrapalhado – porque ela deduziu que aquele homem não podia ser outra coisa, senão um caçador – iniciaram uma busca para recapturar os leitõezinhos fujões, que os deixou tão sujos quanto se tivessem brincado de rolar num chiqueiro.


Infelizmente para a pobre menina, um dos leitõezinhos não foi encontrado, então ela teve que seguir seu caminho e entregar somente quatro leitões ao comprador. Sua Madrasta, porém, não gostou nada de saber que só receberia quatro moedas, pelos quatro leitões vendidos, e não acreditou na história de Aschenputtel sobre o idiota que assustou seu burro e fez os porcos escaparem da carroça. Sobretudo depois de revistá-la e encontrar o pente que ela ganhara de manhã, sem ter como explicar onde foi que o arrumou. De modo que a Madrasta malvada deduziu que ela roubara uma de suas moedas para comprar o pente, e decidiu confiscá-lo e dá-lo à sua filha Annabella.

Falando nisso, onde foi que enfiaram a outra irmã da Cinderela? Nessa adaptação, a Madrasta malvada tem somente uma filha a quem mimar, e não duas como no conto que conhecemos. Mas, tudo bem... Sigamos em frente.

Aschenputtel retorna, naquela tarde, ao túmulo da mãe, para lamentar o que lhe aconteceu, e como é uma boa menina, e foi vítima de uma injustiça, a nogueira lhe dá outro pente, desta vez de prata, para substituir o pente de madeira que a Madrasta confiscou.
Enquanto isso, não muito longe dali, o “caçador”, retorna ao castelo, e leva uma bronca do Rei por chegar em casa fedendo a chiqueiro, mas ele não liga, e garante que esteve se divertindo na floresta. O Rei, porém, acha que ele já não tem mais idade para isso, e que já está mais do que na hora de ele arrumar uma esposa, para que ele possa enfim lhe passar a coroa. O Príncipe Victor – que não é, de fato, um caçador –, afirma que não está interessado em se casar ainda, mas o Rei decide, mesmo a contragosto do filho, oferecer um baile a todas as moças solteiras do reino, para que seu filho possa escolher uma delas.
A notícia do baile é recebida com entusiasmo na fazenda, e Aschenputtel confessa a uma amiga e também criada da fazenda, Johanna, que não tem interesse no Príncipe, mas que gostaria de poder ir ao baile e dançar um pouco. Ela pede permissão à Madrasta, mas esta reage com indignação, pois pretende induzir o Príncipe a escolher sua filha como esposa; mas depois acaba consentindo, contanto que Aschenputtel cumpra primeiro uma longa lista de tarefas – que ela imagina ser longa demais para ela terminar a tempo de ir ao baile.

Primeiro, ela deve ir ao moinho buscar alguns sacos de farinha, apesar de terem farinha de sobra na fazenda. Mas esta tarefa acaba sendo novamente atrapalhada quando Aschenputtel se distrai observando o mesmo suposto caçador que está como uma besta... Digo, com uma besta tentando caçar passarinhos nos galhos das árvores na floresta. Ela ficou tão absorta espiando o rapaz, agachada ao lado do burro – Nepomuk, o de quatro patas que carrega a farinha, quero dizer –, que nem se dá conta quando puxa acidentalmente o cordão que amarra a boca de um dos sacos ao tentar se levantar, fazendo toda a farinha cair por cima dela.

Não bastasse o prejuízo que ela, de novo, teria que explicar à Madrasta, Aschenputtel acaba escorregando pelo barranco, branca de farinha, e caindo aos pés do seu suposto caçador.
Os dois conversam um pouco, e ela se distrai tirando sarro porque ele não consegue distinguir uma árvore da outra, e quando volta para casa, toma outro esporro da Madrasta por ter usado um saco inteiro de farinha como pó de arroz.


Felizmente, desta vez, a Madrasta não quis descontar o prejuízo com o que quer que a enteada tivesse nos bolsos, afinal, a coitada já teria trabalho suficiente fazendo o serviço de quinze dias em apenas um se quisesse ir ao baile.

E como é uma garota determinada, Aschenputtel conseguiu cumprir todas as tarefas com folga: a casa estava limpa, os chiqueiros também, a farinha estava guardada, a roupa lavada, a comida pronta, a cozinha arrumada, o aluguel do Seu Madruga pago... Enfim, ela já estava liberada para começar a se arrumar.



No entanto, Annabella decidiu, na última hora, que queria comer sopa de lentilhas, e mandou Aschenputtel preparar. Mas como o plano era atrasar a irmã postiça o máximo possível, a vadiazinha jogou toda a lentilha do pote nas cinzas ao lado do fogão para que a irmã tivesse que recolhê-las. E como desgraça pouca é bobagem, a Madrasta decidiu complicar ainda mais a vida da enteada, adicionando ervilhas à bagunça de grãos no chão da cozinha, esperando que Aschenputtel não conseguisse separar tudo antes do baile.



E ela realmente não teria conseguido, se a pombinha branca que gosta de se empoleirar na nogueira que cresceu no túmulo de sua mãe não tivesse chamado as amigas para ajudar a separar os grãos de ervilha numa vasilha, os de lentilha na outra, e as cinzas para fazer a sopa da Madrasta.



Menos de uma hora depois, Aschenputtel mostrou os grãos separados para sua Madrasta, que se admirou por ela ter conseguido cumprir a tarefa a tempo. Então a mocinha anunciou que só ia se limpar um pouco, e já, já estaria pronta para partir, porém a Madrasta a proibiu, lembrando-a de que ela era ralé demais para ir a um baile no palácio, o que fez Aschenputtel dar um chilique.

Então, na falta de uma saia, a mocinha foi novamente chorar debaixo da árvore da mãe, lá onde toda a magia acontece, e, pouco tempo depois, ela estava limpa, penteada, trajada com um belo vestido branco, e com um lindo cavalo branco à sua espera.
Assim, tem início o grande baile para desencalhar o Príncipe Victor, e ele começa a apreciar o desfile de “beldades” ainda no jardim.
Eis que chega a mocinha – detalhe: sem o toque de recolher à meia-noite; até porque o baile acontece durante o dia –, em seu cavalo branco, e não demora a perceber a presença de seu belo caçador dançando no salão.


Aschenputtel é, sem dúvida, a única mulher na face da Terra capaz de torcer o nariz ao descobrir que andou flertando com um príncipe...

Mas não se deixou intimidar. E como sua ideia desde o princípio era ir ao baile para se divertir e dançar, ela não demorou a se jogar na pista, incentivada pela Dama de Paus – se é que vocês me entendem...



E também não demorou nadinha para atrair a atenção do Príncipe para si. A princípio, ele não consegue se lembrar de onde a conhece, e imagina que ela pertença a nobreza, mas ela logo garante que não.

E vai arrebatando o coração do Príncipe ao demonstrar que conhece suas danças melhor do que ele. Para desagrado de Annabella e da Madrasta, que ficam possessas ao perceberem que é Aschenputtel quem está monopolizando a atenção do Príncipe Victor.
Elas aproveitam uma distração do Príncipe para arrastar Aschenputtel para fora do palácio e empurrá-la no fosso, para que não fique no caminho de Annabella e seu golpe do baú. Humilhada e ensopada, a mocinha acaba não tendo outra alternativa, senão montar seu cavalo branco e ir embora mais cedo do baile, sem se preocupar em recolher o sapato que perdera ao ser arrastada pelas duas malvadas.
Licença poética by Chapolin Colorado
Bem, não importa muito de quê seja feito o sapato, contanto que ele seja calçado no pé da garota certa!

Então, o Príncipe Victor, determinado a não perder sua pretendente desastrada, decidiu sair em seu encalço. Porém, a Madrasta de Aschenputtel, depois de perceber que o Príncipe se escafedera atrás de um rabo de saia qualquer, e não tendo mais ninguém importante ali com quem pudesse casar Annabella, voltou para a fazenda, e começou a estapear a enteada por tê-la desobedecido e estragado seus planos. E como uma bronca e um pequeno corretivo não pareceram suficientes para extravasar sua raiva, a Madrasta jogou Aschenputtel por um alçapão na cozinha, arrastou uma mesa para cima dele e se sentou para evitar que a enteada escapasse outra vez.

E bem nesse momento bateram em sua porta.
E como percebe que esse milagre é resultado da reza de outra santa, a Madrasta mantém Aschenputtel trancada e manda Annabella colocar um vestido branco e o manto de pelerine para esconder seu rosto.


Então ela conduz Annabella, com o rosto escondido sob o capuz do manto, até o Príncipe, para que ele a leve embora de uma vez, mas ele pede que ela experimente o sapato, para que ele possa ter certeza de que ela é realmente a moça que ele está procurando. E como é muito desconfortável fazer isso em pé, e é extremamente difícil encaixar um sapato naquela prancha de surf que Annabella tem no final de suas pernas, a mulher a leva para calçar o sapato dentro de casa.

Como todos já sabemos, o sapato é pequeno demais para o pezão da irmã postiça da Cinderela, mas como sua mãe está convencida de que nenhum sacrifício é demais para quem quer se tornar rainha, literalmente desce o machado sobre o pé de sua filha para que ele caiba no sapatinho.

Em seguida, ela conduz a filha de novo para fora, e mostra ao Príncipe o pé calçado com o sapato. No entanto, a pomba que gosta de dormir num galho da nogueira começa a cantar para o Príncipe, alertando sobre a presença de sangue no sapato. E ao removê-lo para verificar, Victor comprova que aquela louca foi capaz de cortar um pedaço do pé de sua própria filha para forçá-lo a casar com ela.
Então ele pergunta se há outras moças na casa, disposto a experimentar o sapatinho em cada uma delas, se for preciso; porém a Madrasta garante que não tem outra filha, mas que Annabella é lindíssima, e que ele poderia facilmente se apaixonar por ela.

E enquanto toda essa confusão acontecia no quintal, Johanna, a outra empregada da fazenda procurava Aschenputtel, e a libertava do alçapão, bem a tempo de sair para encontrar seu Príncipe e recuperar seu sapato.
Pois é, dona Madrasta: aqui se faz, aqui se paga!

Aschenputtel pede permissão ao Príncipe para levar todos os empregados da fazenda para trabalhar no castelo e ele consente, para alegria geral da nação, que comemora não ter mais que aturar aquela megera.
Assim, a Madrasta e a filha malvada ficam sozinhas em sua fazenda – Annabella com o déficit de alguns dedos do pé –, assistindo enquanto Aschenputtel, a quem tanto maltrataram, parte para o castelo com o Príncipe Victor, onde viverão felizes para sempre.

Isto é, depois de passar um pouco de cola naquele sapato que ela insiste em continuar perdendo por aí...


Fim.

* Curiosidades:


* Não se sabe ao certo a origem da Cinderela, mas acredita-se que o conto tenha nascido na China, por volta de 860 a.C., tendo também versões conhecidas desde o Antigo Egito. Na Europa, a versão mais antiga é italiana: La Gatta Cenerentola, publicada em 1634, por Giambattista Basile. Somente em 1697, o conto se tornou popular no resto da Europa, com a versão do francês Charles Perraut (a versão retratada pela Disney), e, mais tarde, em 1812, com a dos Irmãos Grimm (a versão que acabo de contar).

* No conto original dos Irmãos Grimm, não havia Fada-Madrinha nem Bibit Bobit Bum. O encanto veio mesmo da pombinha branca que vivia empoleirada na nogueira que cresceu no túmulo da mãe da Cinderela.

* Cinderela também não era completamente órfã. Seu pai ainda estava vivo quando o Rei ofereceu o baile para que seu filho escolhesse uma noiva – baile este, que durara três dias, e em cada um deles, Cinderela apareceu com um vestido diferente, sempre mais belo e luxuoso que o anterior –, e não se sabe bem o motivo, mas o pai da garota não fazia nada para evitar que sua filha fosse maltratada e humilhada pela Madrasta e pelas irmãs postiças – que, falando nisso, eram duas!

* O sapato de cristal também é uma invenção ocidental. O conto original não descreve exatamente do que eram feitos os sapatos de Cinderela, apenas destaca que eles eram bordados com ouro e prata.


Bem, assim terminamos nossa série de postagens sobre os contos de fadas alemães. Espero que tenham curtido. Nos vemos em breve! *-*





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